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LIVRO - PARÁBOLAS DE CORAÇÕES ESPECIAIS
 

   Dedico este livro a meus pais, Heitor e Celina, a toda a minha família, aos acolhidos e a toda a família Jesus Menino.

   Em especial a D. José Fernandes Velloso (in memorian), presença do Céu junto a nós desde a primeira inspiração, e muito mais agora...

Agradecimento

   Ao casal Lafer e Lara, pela dedicação e generosidade na realização deste trabalho. E à Mariana, que com todo carinho digitou e se emocionou com estas páginas.

Aos amigos

   Antonio Carlos Santini e Professor Ataualpa que com grande zelo fizeram a revisão ortográfica dessa 2ª Edição.

 
Primeiras Palavras
Abertura - Parábolas de Corações Especiais
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Abertura po Antônio Carlos Santini

20 de junho de 2006


Hoje é um dia especial, pois começo a escrever toda a trajetória de minhas simples experiências com tantos corações especiais. Para mim, muito mais do que um trabalho, uma celebração contar através destas linhas a ação de Deus em nossas vidas quando damos o nosso pequeno passo.


Alguns amigos sempre insistiram para que deixasse tudo isso escrito. Creio que todos se preocupam em fazer de cada um desses fatos histórias serem vividas por outras pessoas...
 

Entre fatos alegres e simples, poderemos perceber a mística que Deus usa quando, através de experiências, revela Seu plano, que se vai cumprindo através dessa simplicidade e alegria, em fatos marcantes que se tornam páginas de histórias de muitas vidas.


Gostaria de agradecer a todos aqueles que me ajudaram a escrever estas linhas e, é claro, que somaram comigo e me ajudaram a construir esta história; especialmente a meus pais pelo dom da minha vida; a Deus, que me presenteou com esta vocação e aos acolhidos, razão da minha entrega.
 

O termo parábolas evoca uma realidade de ordem superior e o escolhi por entender que cada vida é uma linda história que Deus quer nos contar; e o que Ele nos pede é que tenhamos olhos para ver e ouvidos para ouvir. São histórias que trazem uma realidade onde o mais importante é cumprir a Vontade que vem do Alto, passando pelo humano e voltando ao Céu, como sinal de que é preciso antes de tudo crer, obedecer e ir sempre além, mesmo – e, sobretudo! – ao desconhecido, ao impossível, pois lá haverá sempre a certeza de que somos chamados essencialmente a AMAR... “eis o maior Mandamento!”

Primeiro Natal, em 1990

Primeiros Membros da Comunidade

 
Introdução
Introdução - Parábolas de Corações Especiais
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A pequena obra que temos nas mãos não nasceu como nasce a maioria dos livros: num escritório silencioso ou numa varanda à beira mar, com o autor isolado de tudo e de todos, preocupado apenas com o que escreve... Ela foi escrita em meio aos afazeres de uma casa cheia de pessoas que exigiam do autor sua atenção, carinho e decisões. Entre uma fralda e um telefonema internacional, entre um carinho e uma decisão administrativa, as lembranças iam se transformando em palavras e o texto foi tomando forma.
 

O autor, narrador e protagonista pretendeu contar a história de uma obra: a Comunidade Jesus Menino. Mas como fazê-lo sem que essa história se tornasse sua autobiografia, se sua vida se confunde com a vida da Comunidade? É sempre assim quando vemos um homem de fé entregando-se a uma missão e respondendo ao chamado de Deus desde o seu nascimento: tudo parece convergir para o chamado.
 

E não pode mais se perguntar, como tantos o fazem: “para que nasci?”, pois já sabe. O que temos aqui não é uma obra de ficção que se pode maquiar a bel prazer; antes, temos uma história absolutamente real, tão verdadeira que às vezes parecerá irreal. Momentos de alegria, de tristeza, de intensa fé em Deus e no homem, percalços e sucessos formam o cenário de uma vida marcada pela simplicidade e santa obstinação.
 

Ao ser convidado para ajudar a escrever esse texto, foi-me pedido que interferisse colocando-o nos moldes de um livro, já que fora escrito com a espontaneidade da experiência vivida. Tarefa difícil para quem teve o privilégio de testemunhar a ação inefável do amor de Deus nas pequenas coisas que permeiam essa história. Numa época de grandes eventos, mega narrativas, best sellers com histórias fantasiosas, sedentas de mistério, penso se não é urgente voltar o olhar para a simplicidade e singularidade das experiências de vida e fidelidade a Deus, onde se encontram a grandeza do amor e os valores humanos mais nobres e onde talvez se encontre escondida a verdadeira humanidade, aparentemente esquecida.
 

Essa história é uma história de vida, de uma vida vivida por pessoas concretas que se encontraram e entenderam que precisavam ser uns para os outros interlocutores do amor de Deus e aceitaram esse destino. Como alterar uma letra sequer, por mais singela que possa parecer, se depois de passear por elas aprendo que é justamente por serem tão singelas que fazem essa história tão grandiosamente bela?
 

Um diamante pode se tornar mais bonito ao ser burilado, lapidado, mas a pedra original guarda a história de quem a encontrou... Aprendi com o Tônio e com a Comunidade a amar as pessoas como elas são, dando-lhes tudo o que for possível para que sejam e se sintam amadas e felizes. E em cada beijo que o pequeno Daniel nos dava, em cada sorriso que ele trocava conosco, aprendia um pouco mais sobre a vida. Por essa razão, procurei conservar, o máximo possível, a originalidade das palavras.
 

O leitor de Parábolas de Corações Especiais não terá um relato jornalístico, nem nada parecido com escritos místicos, apenas receberá um convite para caminhar ao lado de um ser humano que conseguiu ver a beleza da pessoa a quem o mundo utilitarista negou dignidade e se fez indiferente; a passear com um filho de Deus pelos jardins da única aventura verdadeira: amar incondicionalmente.
 

Luiz Alfredo Ferraz (Lafer)

 
Apresentação
Apresentação - Parábolas de Corações Especiais
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Como nas narrativas vocacionais da Sagrada Escritura, nas páginas deste livro, vamos nos deparar com um homem que, ao cuidar de suas coisas, de sua vida, se surpreende com um chamado eloquente que o impulsionará a dar passos que, se alguém lhe tivesse contado, não teria acreditado. Este chamado segue o ritmo da pedagogia divina e ao mesmo tempo dá um sentido novo ao passado, ao presente e ao futuro daquele jovem inquieto.
 

Tônio compreenderá, pouco a pouco, que através de sua vida de estudos, trabalhos e compromisso apostólico, o Senhor estava preparando nele um regaço acolhedor para dar lugar a uma paternidade nova na obra que com ele iria realizar. É belo perceber, na trajetória que ele vai descrevendo, a mão providencial de Deus formando os discípulos de que Ele tem necessidade. A partir do chamado divino, sua vida será marcada pela história de uma nova família que deverá constituir. Deus sempre quis a família para o homem e, para aqueles que não tinham família, o Senhor quis lhes dar um verdadeiro lar. Quem são os filhos dessa família? Homens e mulheres que não conheceram o calor do lar porque eram diferentes. A nossa sociedade massificada pretende padronizar o ser humano e, por isso, torna-se incapaz de perceber a beleza da imagem de Deus que se esconde em qualquer ser humano. A Comunidade Jesus Menino nasceu precisamente para ser mais uma voz profética que anuncia a grandeza da pessoa humana num tempo de tantos abusos contra a sua inviolável dignidade.
 

Neste livro, o autor, de maneira simples, com a mesma simplicidade do cotidiano familiar vai contando os passos que Deus lhe pede ir dando, na fé, para realizar um plano de acolhida e de manifestação da sua infinita misericórdia que se estende, sobretudo, para os últimos que acabam por se transformarem nos primeiros reflexos do amor de Deus pela humanidade. Na experiência da fundação da Comunidade, tocamos a concretude daquelas palavras do Apóstolo: o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens (1Cor 1, 25).
 

Fico feliz em poder apresentar estas páginas escritas com a própria vida entregue a Deus, pois nos inícios dessa aventura chamada Comunidade Jesus Menino, estive presente oferecendo minhas primícias de vida sacerdotal àquele grupo de jovens que tinham no coração um desejo ardente de amar Jesus através de pessoas feridas, frágeis, mas com uma capacidade de amar incomparável.

 

Desde o início, a preocupação do Fundador e seus amigos que juntos empreendiam o caminho foi a proximidade com as autoridades eclesiais. Neste propósito, encontrou apoio especialíssimo em D. José Fernandes Veloso, bispo diocesano de Petrópolis, na época da fundação. A atenção à palavra do Pastor, que sugeriu sempre a medida da prudência e da fidelidade às inspirações divinas, contribuiu para que a Comunidade desse passos seguros na realização dos projetos que o Senhor tinha para ela.
 

A Comunidade Jesus Menino é um reflexo muito bonito do Novo Pentecostes que com o Concílio Vaticano II aconteceu na Igreja. Nasce e se desenvolve sob o influxo de uma corrente de vida muito fecunda, a partir do
contato com outros grupos, movimentos e instituições novas, nascidas no impulso da renovação espiritual do século XX. Àquela inspiração inicial do fundador e de seus companheiros, unir-se-á a riqueza espiritual de tantos outros fundadores e grupos importantes para o novo tempo de testemunho que a Igreja vive: Marthe Robin e os Foyers de Charité, Jean Vanier e a Arca, Chiara Lubich e os Focolari, os Cursilhos de Cristandade, Canção Nova, Fazenda da Esperança, etc. O itinerário essa realidade eclesial é marcado, portanto, pelo esplendor da ação do Espírito nesses tempos que estamos vivendo.

 

Percorrer essas páginas certamente ajudará aos jovens em busca, como o jovem Antônio, a encontrar pistas para um autêntico discernimento vocacional. A vocação é dom que Deus coloca no coração da pessoa humana. Discerni-la consistirá, portanto, no exercício da escuta do coração, como o fundador foi aprendendo a fazer: ouvir a voz do coração, porque Deus está nele. Mas também o Senhor está no outro, especialmente no necessitado; e quando paramos para ouvir o seu clamor, tudo começa a se esclarecer e já se pode vislumbrar o caminho que se deve seguir. “Aprender a escutar”, assim se discerne a vontade de Deus na própria vida. Escutar Deus que fala no coração, fala através dos Pastores da Igreja e que fala também no pobre. O encontro com o pobre é caminho seguro para um encontro com Deus que dá sentido a toda a vida. Grande razão tinha S. Vicente de Paulo quando dizia que os pobres são os nossos grandes mestres, também a eles é preciso aprender a ouvir quando se quer seguir o verdadeiro chamado de Deus. A pergunta de um jovem portador de deficiência – você quer ser meu pai? – foi suficiente para colocar em movimento a fecundidade paterna desse caminho que é a Comunidade Jesus Menino. Este foi o momento decisivo para que uma nova família nascesse no seio da Igreja.
 

As tribulações tampouco faltam no seguimento de Jesus. Elas não faltarão no itinerário da Jesus Menino de diversos modos: perseguição, incompreensão, calúnias e, muitas vezes, o mais doloroso é que elas procedem daqueles que são nossos irmãos, mas é preciso contar com elas se se quer seguir o caminho do discipulado. Nas origens da Comunidade não faltaram esses momentos que, como sempre, Deus se serviu para aprofundar as bases para dar segurança ao crescimento de sua obra.
 

Mas no caminho não se vai sozinho! Na realização do plano de Deus não falta o apoio dos verdadeiros amigos e o Senhor se faz próximo através deles. É admirável ver como os amigos são verdadeiros portadores do anúncio e da mensagem de Deus. O autor cita diversos nomes do seu convívio que, pouco a pouco, vão se tornando familiares também ao leitor. Eles são os João Batista que profetizam na vida normal do dia a dia aquilo que Deus está querendo fazer com a vida de Tônio. E Deus quis que sua obra fosse séria, porque Deus leva a sério as pessoas humanas. Aqui vemos o sentido de tudo aquilo que Tônio nos conta acerca da estruturação jurídico-administrativa da Comunidade. Ouvir os relatos acerca da parte burocrática nos faz recordar o que o Papa Bento XVI disse na sua Encíclica Deus caritas est (Deus é amor) que a caridade deve ser organizada. Na Igreja a preocupação com a organização visível das realidades que nela existem faz juz à realidade do grande mistério da nossa fé, a Encarnação do Verbo. Deus se mostrou visível aos homens na vinda de seu Filho Jesus à nossa carne. Assim também não pode nunca ser indiferente para a Igreja a organização de suas instituições.
 

Ao mesmo tempo se descobre na leitura que o que move o fundador é o ardor missionário. A Comunidade Jesus Menino é um verdadeiro trabalho de evangelização, adaptado ao que pediu João Paulo II: evangelizar com novo ardor, novos métodos e nova expressão! A comunidade não presta simplesmente um trabalho de assistência social. Ela é antes de tudo uma resposta ao apelo de Jesus para a evangelização. Desde o início vê-se a preocupação de dar Jesus aos portadores de deficiência, especialmente no trabalho de catequese e na divina Eucaristia, desse modo, como instituição eclesial, a Comunidade também é missionária. Realiza a missão acolhendo os “especiais”, dizendo para eles “Levantate! Vêm para o meio” (Mc 3, 3). Por outro lado, a Comunidade evangeliza os que vêm de fora. Quantas pessoas retornaram à casa do Pai e à sua Igreja mediante o testemunho da caridade que lá encontraram.
 

Repassar essa história que em muitos momentos vivi de perto, emocionou-me profundamente; especialmente por poder percorrer numa visão de conjunto as magnalia Dei, os grandes feitos do Senhor, que se serve da fragilidade humana para realizar seu desígnio de amor e misericórdia. Deus pode fazer coisas esplêndidas quando encontra um grupo de pessoas dispostas a uma dedicação plena a Ele através da pobreza radical, da oração constante e da caridade vibrante. Arrisco afirmar que é esse o segredo do êxito de toda obra na Igreja. Que o Senhor continue encontrando essa mesma disposição em todos os membros da Comunidade Jesus Menino e que Ele abençoe esta obra-testemunho para que muitos, de longe e de perto, ao lerem este livro possam experimentar a novidade desse amor que se vive na Comunidade e que nos revela de forma extraordinária o rosto amante de Jesus.
 

Dom Gilson Andrade da Silva – Bispo Auxiliar de Salvador – Bahia

 
Capítulo I
Uma Família Simples
Capítulo I - Parábolas de Corações Especiais
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Nasci em um domingo, 12 de junho de 1960, às 13h45 e me chamo Antônio, nome escolhido por meus avós maternos, por eu ter nascido na véspera do dia de Santo Antônio (e dia dos namorados). Foram meus próprios avós que fizeram o parto de minha mãe. Meus pais Celina e Heitor, casal simples, nasceram ambos em Itaipava, Petrópolis, onde sempre viveram e casaram. Desse matrimônio, vieram quatro filhos: Maria de Lourdes, eu, Gerson Luís, Maria Aparecida. E a família cresceu com a chegada de mais um, gerado no coração: Rodrigo. Desta família vieram os sobrinhos Rômulo e Mariana, filhos de Aparecida; Heitor e César, filhos de Lourdes; e Ana Beatriz, filha de Gerson.


Fomos criados todos com muita simplicidade, e nossos pais sempre procuraram nos dar o necessário, encaminhando-nos aos estudos e à Igreja, onde nunca os vi muito praticantes. Sempre fui muito impulsionado pelos meus avós para ir à Igreja e cresci na fé junto deles. Minha mãe, dona de casa, sempre foi muito zelosa com os afazeres domésticos e com os filhos. Papai é comerciante e sempre cuidou de animais e trabalhou em vendas; assim nos sustentou até a idade adulta. Ainda hoje ambos estão com saúde e vivem na mesma casa onde nos criamos, na Laginha, em Itaipava.

Minha Primeira Eucaristia
Tia Thereza, irmã de meu pai, foi minha catequista. Ela mesma me levava à catequese. Fiz a Primeira Comunhão em 12 de dezembro de 1968, com oito anos de idade. Quem celebrou foi Monsenhor Luís Brasil Cerqueira, o mesmo que me batizou em 27 de junho de 1960, na Paróquia de São José de Itaipava. Lembro da pequena festa que Tia Thereza fez no coreto, um bolo branco com muito chocolate! Guardei a roupa da Primeira Comunhão por muitos anos, pois lembrava sempre daquele dia com muita gratidão.

 

Minha avó paterna, Lourdes, que também era minha madrinha, era quem me levava à igreja. Nos meses de maio e junho, íamos todos os dias à Missa e orações do terço e depois ela me pedia para eu levar a imagem de Nossa Senhora Aparecida para casa. No início, como é natural nas crianças, eu sentia um pouco de vergonha, pois passava perto de muitos bares – eu com a imagem e minha avó levando a vela. Depois, acabei me acostumando. Creio que ali nasceu um grande do Amor de Nossa Senhora por mim: eu a conduzia quando criança e hoje é Ela quem me conduz...


Minha primeira escola foi na casa de Olívia, líder comunitária de Laginha e nossa vizinha. Foi ela quem me ensinou as primeiras letras. Estudava sempre na parte da tarde.


Depois fui matriculado na primeira série do Grupo Escolar Cândido Portinari, em Itaipava, onde estudei da primária à oitava série. Lembro-me da primeira professora, dona Minervina, depois dona Ruth Guimarães, que hoje é voluntária da Comunidade. Neste tempo, também tive aulas de ensino religioso com Pe.Casimiro, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que incentivava bastante a nossa participação na Santa Missa, e sempre dizia que não via jovens na Igreja da Laginha.


No Colégio, iniciei a vida de adolescente e jovem. Ali nasceu o primeiro namoro e os passos para a descoberta da vida adulta. Ali também nasceram muitas amizades que, de tão fortes e verdadeiras, duram até hoje.
 

Depois fui para o Colégio Padre Corrêa, fazer o primeiro ano do segundo grau, onde conheci as irmãs Nadir e Niva e os professores de ensino religioso, que naquela época eram os seminaristas lazaristas.
 

Fui cursar o restante do segundo grau no Liceu São José de Itaipava, onde conheci amigos que eram os amigos do baile de Pedro do Rio, dos carnavais, das excursões para a praia e dos passeios ao Tarrafa’s. Em tudo isso, nada de exagero, apenas um jovem, vivendo uma vida jovem, segundo a sua idade e o que determina a cultura de seu tempo. Ali terminei o segundo grau em 11 de dezembro de 1980.
 

Alguns sonhos nasciam após o segundo grau: fazer faculdade de Veterinária ou Direito (que não era sonho meu, mas de meu pai – e quase fiz para agradá-lo...).

Primeira Comunhão de Tônio

Tônio aos 18 anos

Casamento de Heitor e Celina, pais de Tônio

Tônio ao lado do Primo Oswaldo

 
Capítulo II - Parábolas de Corações Especiais
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Capítulo II
Voltar para a Igreja

Durante o tempo escolar, na adolescência e juventude, estive longe da Igreja. E aos 19 anos, então fui convidado pelo primo Vadinho a iniciar um grupo jovem na Capela Santa Luzia, na Laginha. Ele havia feito um encontro de jovens chamado Sol, na Paróquia de São Pedro de Pedro do Rio, e ficou muito entusiasmado. Então nos unimos: eu, Vadinho, Olívia, Quinha, Márcia, Dedeco, Marcinha e Sandra, e com o apoio do Pe. Casimiro fundamos o Grupo Jovem Estrela, com a finalidade de reerguer o povo que estava adormecido na fé, e erguer a Igreja templo.
 

O grupo jovem realizou um grande trabalho de evangelização e participou ativamente da construção da Igreja que foi inaugurada em 12 de dezembro de 1983. Aí houve em mim um despertar e fizemos o 5º Semente, do Movimento de Juventude “Semente”, fundado pelo Padre JAC. Após este encontro, a “semente” de fato foi plantada... Quinha e eu iniciamos um trabalho de visita às famílias levando a imagem de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus (lembro do tempo que fazia isso com minha avó). Visitávamos os enfermos aos domingos e nossa vida era nos finais de semana servir à Igreja jovem, às famílias e ir aos hospitais.
 

Durante o dia, trabalhava na Nova Cerâmica, no setor de produção e estoque. Lembro-me de Armando, que era evangélico, e com quem muito aprendi. Na cerâmica, pude também dar catequese de adultos, criar momentos à tarde para rezar e levar muitos para o Cursilho e os encontros de jovens.
 

Trabalhava de dia e estudava à noite. Nos finais de semana, visitava os doentes e dava aulas de catequese, catequese de adultos, trabalhava com preparação para o Batismo e preparação para o casamento de reparação.
 

Em tudo isso sentia que Deus me convocava para alguma coisa que eu não sabia bem o que... Sentia uma inquietação e os namoros e saídas à noite já não faziam tanto sentido para mim.
 

Fui convidado por Mons. Jorge para ir a uma reunião no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Amor Divino, em Correias. Aquela inquietação só aumentou. Não só por causa da reunião, mas por ter me deparado, logo na entrada, com uma imagem de Cristo, posta no hall do seminário. Era como se Ele me olhasse bem nos olhos e dissesse: “Vem”!
 

Mons. Jorge me fez outro convite, dessa vez para fazer o encontro de
descoberta, em julho de 1982. Nesse encontro, nasceu em mim o primeiro sinal
de vocação.

 

Minha avó Lourdes sempre sonhou em ter um neto padre. E antes de morrer, disse que pensava ser eu este neto. Isso me deu mais força. Chamei o Quinha, pois sempre fomos muito amigos, estávamos juntos todos os dias e um colocava no coração do outro seus sonhos. Havia ali a unidade de um confessionário entre duas almas jovens que sentiam o impulso de amar e se entregar a Deus sem restrições.
 

Convidei-o para ir comigo ao encontro de descoberta, ele disse que iria por amizade e de companhia, mas que não queria ser padre! Que isso passava longe da sua cabeça, mas mesmo assim iria comigo. E fomos. Fiquei mergulhado na intensidade do encontro. Lembro-me da música “A Barca”. Ela me levava a senti-me indo... Quando o encontro acabou, descendo a ladeira do Seminário falei com Quinha: “É pra cá que eu quero vir, pois se não for padre não serei mais nada, meu lugar é o Altar!”, ao que ele respondeu: “Eu não quero isso para a minha vida nunca, nunca! Sinto que Deus não me chama. Não vou mais vir a esses encontros, pois não quero isso”.
 

Naquele ano, continuei os estudos no Liceu, cursando o segundo grau e pensando em ingressar no Seminário no próximo ano. Quando pensava em deixar tudo, me sentia vazio. Como largar a catequese, a família, o trabalho? Para mim, era muita renúncia.

Formatura na 8ª Série (Atual 9º ano)

A grande surpresa
Quinha fazia faculdade de Psicologia. Certamente, pois sempre foi fascinado por crianças. Quando vinha da faculdade, passava pela minha casa e batia na minha janela e dizia: “Tônio! Bênça!”, e eu dizia: “Deus te abençoe!”. E nos calamos sobre vocação.

 

Ao término do encontro de descoberta de dezembro, eu estava na porta do Seminário e olhei dali para Corrêas. Era uma tarde bonita, e senti novamente muito vazio. Parecia que Deus me dizia: “Aqui não é o seu lugar”. Senti-me triste e muito perdido. Precisava começar a organizar as coisas para ingressar em março do ano seguinte (roupas, batistério...), e tudo era muito confuso. Disse ao Mons. Jorge que não sabia se ia ingressar, pois precisava pensar mais. Cheguei em casa e os dias seguintes foram de muita angústia. Não partilhei sobre isso com ninguém, nem mesmo com Quinha. Por outro lado, ele também estava angustiado e pensativo. Deus também estava incomodando a ele, mas os dois estavam em silêncio.
 

No início de janeiro, fui ao Seminário e disse ao Mons. Jorge que não queria mais isso pra mim, que Deus não me queria ali. Ele disse que não me entendia, que eu estava fugindo do meu chamado, mas me abençoou e disse: “Vá com Deus e conte sempre comigo. Sei que você fará algo muito bom e grande para a Igreja. Siga seu coração...”.
 

Voltar e deixar aquele sonho, tirar do coração das pessoas tudo aquilo que eu mesmo idealizei no coração não era tarefa das mais fáceis, mas tive forças e enfrentei tudo de cabeça erguida.
 

No final de fevereiro daquele ano, Quinha me chamou em particular e disse: “Tranquei a faculdade e vou entrar no Seminário. Quero ser Padre!”. Confesso que senti muita alegria, mas ao mesmo tempo muita dor por não ter tido coragem de dizer o “sim”, que não era meu, e sim dele. Dor também, pois assim estaríamos nos separando para viver agora cada um seu chamado particular...
 

Levei-o ao Seminário e participei da Missa de entrada. Quando me despedi dele sentia que agora seríamos irmãos de longe para viver nosso chamado. Ele disse: “Quando puder, venha aqui”.
 

Naquele ano, fui convidado a coordenar o nosso Movimento de Juventude Semente, junto com mais dois amigos. O Movimento com certeza tomaria todo meu tempo nos finais de semana, e então nascia outra Missão. O movimento tinha vinte e sete grupos de jovens espalhados por Petrópolis, Retiro, Itaipava, Posse, Areal, Bemposta, Alberto Torres, etc. Era uma correria só para dar conta de encontro de jovens, jornada nos finais de semana, festivais de poesia, integração regional, curso de lideranças, visitas aos grupos e apoio, encontro com sacerdotes, reunião com o bispo. Cleber, eu e Marcos nos tornamos verdadeiros irmãos em três anos de caminhada. Assim voltou ao meu coração o desejo de namorar e eu me permiti viver fortes paixões. Em tudo isso, sempre o desejo reto de um jovem para Deus.
 

Assim, tive que deixar a comunidade da Laginha aos poucos. Fiquei só dando catequese aos sábados.
 

A vontade de amar

e acolher a dor do outro
Em uma dessas minhas idas ao grupo de jovens de Itaipava Jôse, minha amiga (e alguém que eu pensava em namorar) me fez o convite para batizar uma criança que até então morava com seus pais debaixo da ponte de Bonsucesso. Eles eram muito pobres e viviam como andarilhos. Aceitei para fazer um agrado a ela, mas também porque meu coração ardeu com o convite. Fui visitá-los e me senti parte daquela criança...

 

No domingo seguinte, batizei o pequeno Rodrigo. Seus pais, muito simples, foram comigo à Igreja onde Pe. Lins celebrou o Batismo.
 

Passadas algumas semanas, Jôse me chamou para ir visitar Rodrigo, que estava doente e precisava ir ao médico. Levei-o ao Hospital Santa Teresa e o médico diagnosticou infecção no ouvido e pediu que eu o levasse para qualquer lugar, menos para debaixo da ponte. Então o peguei e levei para minha casa. Foi marcante os passageiros do ônibus me vendo com aquele neném, tamanha admiração! – um ano atrás, eu queria ser padre, agora aparece um bebê... era uma interrogação para muitos... Minha mãe ficou assustada com a minha decisão de levar o bebê lá pra casa. Eu pedi que ela e minhas irmãs cuidassem dele, pois precisava muito. Meu salário era todo para dar as coisas a ele.
 

Passaram-se alguns meses e cuidamos dele para depois devolvê-lo a seus pais, e tentar ajudá-los a morar perto de nós, pois era um casal muito jovem e sem estrutura nenhuma de vida.
 

Os pais se separaram e me entregaram Rodrigo para eu cuidar e foram embora. Era uma jornada cuidar do movimento de jovens, trabalhar, estudar e ajudar a cuidar do Rodrigo. Meus pais o adotaram e Sandra, minha prima e também madrinha dele, deu todo apoio e ele seguiu seu percurso, dando muito trabalho, pois era super travesso – mas uma alegria para toda a casa!
 

Hoje ele está com vinte e seis anos e é um jovem bonito e trabalhador. É o jardineiro da Comunidade Jesus Menino. Vive perto de mim e soma comigo a vocação que um dia nasceu do acolhimento e da qual ele foi o maior sinal, e porque não dizer, o primeiro acolhido.

Rodri com os sobrinhos de Tônio:

Léo, Mariana e Romulo

Os Coarações especiais - Rodrigo e Iago

 
Capítulo III
A vida continua...
Capítulo III - Parábolas de Corações
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O sonho
Durante um bom tempo, fiquei me perguntando por que me decidi tão rápido a não entrar no Seminário. Parecia que meus ideais, a vocação, tudo havia acabado. Estava inquieto e também triste, porém procurava estar atento ao que Deus poderia ainda falar...

 

Certa noite, tive um sonho muito interessante. Sonhei que caminhava perto de um pequeno riacho quando me apareceu a imagem de um sacerdote amigo meu, que eu admirava pelo seu trabalho com os pobres. Depois outra imagem, e eu disse: “O senhor é Deus”, e ele disse: “Não, sou o profeta João Batista”. Em seguida, ele me levou até nossa Capela de Santa Luzia, e ele me mostrava a Laginha, a capela e falava como me mostrasse o infinito... Depois ficamos algum tempo perto da porta da Igreja, mas não entramos. Era um sonho muito perfeito e realista. Fiquei com aquilo na cabeça e pedia sempre a Deus nas minhas orações que eu voltasse a sonhar aquele sonho. Eu queria uma resposta...
 

Continuei minha jornada, trabalhando e estudando, preocupado apenas em ser um jovem pronto para servir a Deus no que Ele quisesse. Muitas vezes, pensava em me casar, ter filhos, morar num sítio e viver lá minha vida de família. Sempre fui muito caseiro, apesar de ter uma vida muito ativa na Igreja desde a juventude.

Catequese para um especial
Nas nossas missas sempre me interrogava sobre um jovem de nome Reginaldo. Ele era Especial, com um comprometimento causado por uma deficiência mental moderada. Ele se aproximava sempre do altar para comungar e o padre não lhe dava a comunhão por não saber se deveria fazê-lo. Aquilo me incomodava, então a mãe dele disse que eu como catequista podia fazer alguma coisa.

 

Lembrei que há dois anos havia feito um curso de catequese diferencial (catequese para crianças e jovens especiais). Fizemos este curso no Seminário, a convite da Pastoral de Catequese. Fiz o curso somente com o interesse de ter mais um curso “no currículo”, nunca pensei em exercê-lo.
 

Aceitei o convite da mãe, falei com o padre e ele me autorizou a dar catequese ao Reginaldo. Nossos encontros eram momentos simples, porém de grande riqueza pela partilha que se dava. Ficamos muito amigos e a preparação durou mais ou menos quatro meses. Acredito que ele entendeu o mistério de que Jesus o conhecia e o amava como ele era... Foi marcante o dia em que ele recebeu Jesus Eucarístico pela primeira vez; marcante também era o fato dele demonstrar uma grande devoção a Nossa Senhora das Graças e ao Sagrado Coração de Jesus...
 

Isso me realizou muito, mas foi uma experiência que ainda não falava nada mais do que estar prestando solidariedade a um jovem especial. Reginaldo foi o primeiro Especial na minha vida.
 

Levava uma vida simples
Sempre valorizei a família e sempre gostei de cuidar de animais (galinhas, coelhos...). Gostava muito de varrer o terreiro de nossa casa aos sábados. Em síntese, gostava de fazer coisas simples. E sempre busquei fazer algo pelas pessoas – sempre tive um carinho muito grande pela pessoa humana, e essa compaixão, herdei de meus avós e meus pais que sempre via muito solícitos a todos, sempre acolhedores à dor dos outros. Até hoje, eles moram na Laginha, e a casa da minha mãe parece uma grande comunidade, sempre cheia de gente, muita alegria, comida, conversa...

 
Capítulo IV
Um outro sinal
Capítulo IV - Parábolas de Corações Especiais
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Novos rumos
Como coordenador geral do Movimento Semente, trabalhava na Paróquia com catequese para crianças e realizava outros trabalhos comunitários. Agora sem a presença do meu amigo Quinha, procurava me enquadrar na vida paroquial.

 

Em uma dessas semanas em que eu arrumava a sala de aula - um pequeno barracão que eu organizava nas noites de sexta-feira para dar aula aos sábados, pois o número de alunos era tão grande que se dividia em três turmas – três amigos estavam lá comigo: Pio, Moisés e Paleco (Paulo Roberto) e de repente chegou um senhor, que se dirigiu a mim parecendo ter muita intimidade comigo. Ele disse que veio a mando de um jovem que me conhecia. Seu olhar era diferente, parecia ser um homem vivido, cheio de experiências e de muita verdade. Trajava roupas muito simples. Lembro que ele me olhava insistentemente. Éramos conhecidos... Parecia já tê-lo visto antes. Assim ele falou: “Olha Tônio, eu venho pedir sua ajuda. Sou umhomem simples e pai de oito filhos. Meus dois primeiros filhos, que são um casal de gêmeos, são excepcionais: cegos, surdos, mudos, paralíticos... somos pobres, sou do interior de Minas Gerais, vim com a família para Petrópolis para conseguir trabalho em um sítio. E agora o sítio foi vendido e tenho que voltar. Por isso venho pedir sua ajuda, pois minha esposa e filhos já foram – agora só falta eu ir... como você pode me ajudar?”.
 

Ele me inspirava honestidade e uma sinceridade muito grande e assim, fui correndo à minha casa conseguir alguma comida pra ele. Precisava fazer alguma coisa.
 

Quando voltei, meus amigos estavam maravilhados com a lição de Evangelho e a sabedoria daquele homem. Ele comeu pouco, disse que já estava satisfeito, pois fazia muito jejum, estava há vários dias sem comer. E se dirigiu novamente a mim:“Você, Tônio não nasceu para o Altar. Seu Altar é outro... Deus quer algo em sua vida. A eucaristia poderá ser celebrada por você, mas de outra maneira”.
 

Ele também disse que eu era um homem da Eucaristia, do Rosário, da Via- Sacra. Disse mais alguma coisa que não me recordo, porém essas palavras tocaram tão fundo o meu coração que as guardei como a um valioso tesouro.
 

Antes de se despedir, ele fez questão de me mostrar sua carteira de identidade para mostrar-me que era trabalhador e uma pessoa de bem... Meus olhos foram direto ao nome dele impresso naquele papel já meio roto: João Batista. Aquele nome me levou para dentro do meu sonho e era como se eu andasse lado a lado
com ele por todos aqueles lugares que um dia havia sonhado. Fiquei ali, parado, imerso naquela lembrança até que o Paleco me despertou, perguntando: “Tônio, está tudo bem?”

 

Voltando à realidade, respondi que sim e me apressei a pedir ao homem que ele ficasse mais um pouco ali conosco. Mas ele disse que precisava ir, despediu-se e se foi.
 

O Sr. João Batista ficou na minha vida para sempre, e até hoje me pergunto quem era aquele homem. E posso ainda na mente ter seu olhar olhando para mim.

 

Perguntei aos meus amigos que moravam nas redondezas da Paróquia se algum deles havia mandando alguém me procurar, mas ninguém viu aquele homem. E eu nunca mais o vi...

Primeiro contato entre Antônio e as crianças da Instituição, em 1984

 
Capítulo V
Um convite especial
Capítulo V - Parábolas de Corações Especiais
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Minha vida na pequena comunidade da Laginha foi se tornando cada vez mais frutuosa, com a Graça de Deus. A comunidade Igreja foi crescendo e com ela vários movimentos e pastorais e em cada uma pude participar e dar minha contribuição.
 

Nesta época, vários homens da nossa capela foram convidados a fazer o Cursilho do Movimento de Cristandade, o que resultou no Grupo Santo Agostinho – esse grupo era formado unicamente por homens, a maioria, casados. De vez em quando, eu ia às reuniões e preparávamos encontros, festas, noites de oração etc. Neste grupo, havia um amigo de nome Elísio, que era construtor de piscinas.
 

Um dia, eu vinha subindo de Itaipava para a Laginha, correndo, e ele me deu uma carona e disse que queria me fazer um convite. Ele me falou que estava trabalhando em uma clínica onde viviam muitas crianças especiais. Ele estava reformando a piscina da clínica e lá sentiu vontade de fazer uma festa para as crianças e dar a elas um pouco de alegria. Disse para mim que era um lugar pobre e triste, por isso o desejo de fazer a festa, e me pediu se eu poderia ajudá-lo e levar os jovens do grupo que eu coordenava a fim de alegrar a festa. Falei com ele que não gostaria, pois não sabia bem como lidar com os especiais. Na verdade, eu tinha era medo de lidar com o desconhecido. Ele insistiu: “Vamos lá, pra você ver e me ajudar somente a organizar a festa”. Com tanta insistência, marcamos para o outro dia, após meu trabalho.


Assim ele passou na cerâmica à tarde e fomos até a clínica. Fui porque queria agradar a ele, mas por dentro um medo muito forte tomava conta de mim. Pensava: “Como será isso? Por que logo eu pra fazer essa festa? Como vou me comportar perto deles?”. Torcia para ele desistir e mudar o percurso, mas quanto mais nos aproximávamos, mais ele se mostrava entusiasmado.

Ao chegarmos à clínica, fomos recebidos por muitas crianças que gritavam: “Elísio! Elísio!”. E ele disse: “Trouxe um amigo novo pra vocês!”. Meu pavor só fazia aumentar, sobretudo porque o local não era nada aconchegante.


Meu primeiro encontro
Assim que abri a porta de um dos pavilhões, vieram vários ao meu encontro, me abraçando, me agarrando e Elísio me deixou ali, sozinho com eles. Não sabia o que pensar ou sentir; percorria-me um misto de pavor e asco. E tenho muito forte na lembrança um jovem de quinze anos, chamado Alexandre Santis. Ele veio e me disse: “Ei, moço, você quer ser meu pai?”. Aquilo então caiu como uma bomba em meus ouvidos e coração; era com se Deus me fizesse mergulhar dentro do meu próprio ser. Era tudo muito novo – eu, como filho pródigo, voltava para casa. Ele me pegou pela mão e me levou para o meio da clínica.
 

Aos poucos, meu coração se encheu de alegria. Eu não percebia, mas Deus me conduzia ao meio de seu povo pobre, era como se Ele dissesse: “Aqui vou te revelar algo”. Uma semana depois fizemos a festa, que foi um dia de muita celebração. As crianças estavam muito alegres. Todo o Grupo Santo Agostinho estava lá participando junto com os jovens que também foram com muita disponibilidade.


Ao deixá-los, senti uma tristeza diferente, pois afinal, gostei muito do contato com eles. Além disso, ecoava em minha mente e coração aquele pedido: “Você quer seu meu pai?” Para mim, não importava a intenção com que ela teria sido formulada; era a voz de um ser humano, um irmão, pedindo asilo em meu coração.
 

O desemprego
Saí da Nova Cerâmica em busca de um novo trabalho. Iria dar aulas em um colégio religioso de Teresópolis, receberia um bom salário e teria moradia paga. Parecia que os caminhos começavam a ganhar forma. Conversei com as irmãs do colégio e acertei tudo. No dia de ir, senti novamente um grande vazio. Não me encontrava naquilo e mais uma vez me perguntava: “O que acontece comigo? Cada vez, fico mais confuso!”. Não aceitei a proposta, tamanha minha dúvida e angústia. Deixei o tempo passar e procurei trabalho em vários outros lugares. Por fim, fui dar aulas particulares em casa, e recebia alguma coisa para me manter. Depois fui dar aulas de Religião em um colégio particular de Itaipava. A clientela era formada por crianças de classe média e alta e o contato com elas era muito bom. Os pais apoiavam muito o trabalho, mas ainda faltava algo...

Procurei Elísio e lhe disse que estava pensando em oferecer-me para dar aulas de religião na clínica, já que eu havia feito aquele curso de catequese diferencial. Ele se prontificou a apresentar-me à direção da clínica. Dias depois, fui admitido como professor. Trabalhava meio expediente todos os dias com uma turma de oitenta alunos.

Confraternização

Genilson, Tônio e Pe Luis Mello – 1ª Comunhão da 2ª turma da Clínica Girassol

 
Capítulo VI
Enfrentar-se diante do desconhecido
Capítulo VI - Parábolas de Corações Especiais
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O trabalho na Clínica
Era uma Missão, isso eu entendi logo de início. Sabia que estava ali muito mais do que para prestar um trabalho ou ganhar dinheiro.
 

Eles ainda estavam muito agitados, era tudo muito novo para eles: eu, as aulas, o permanecer na sala de aula, enfim. Tanto eles quanto eu mergulhávamos num caminho que não sabíamos aonde iria dar. E foi nesta incerteza, mas buscando a certeza, que fui me entregando. Os primeiros dias foram desafiantes. Eu nunca tinha tido contato tão direto com crianças e jovens especiais. Ali também havia muitos adultos. Logo procurei colocar meu ouvido ao dispor deles para saber o que eles mais queriam que eu os ensinasse. Sabia que uma parte deles era bem “comprometida”, mas um bom grupo interagia e eles também me ajudavam. Senti a necessidade de preparar um pequeno programa de aulas e buscar recursos didáticos, mas para minha surpresa não havia quase literatura nenhuma em que eu pudesse me basear para fazer as aulas.
 

Era tudo diferente. Eu dava aulas de catequese há mais ou menos seis anos e trabalhava com jovens, mas aquelas crianças e aqueles jovens eram todos Especiais. Ouvindo-os, descobri que quase todos eram abandonados por seus pais, muitos nem conheciam a família, e aquele lugar não tinha nenhuma intenção de fazer com que eles se sentissem “em casa”.
 

Era um mundo a ser explorado. Foi aí que percebi que começava a amá-los, e que nossos laços iam ficando cada vez mais fortes. Muitos dos meus conceitos começaram a cair por terra, ali estava fazendo papel de padre, pai, filho, amigo... e aí vi que o que eles mais queriam de mim não era os cursos que já havia feito, para eles não importava minha posição, nem minha história passada, nem muito menos os livros que eu pudesse ler; o que eles queriam de fato era o meu amor.
 

Em poucos meses nos tornamos amigos e aos poucos fui deixando as coisas do movimento, da paróquia; nos finais de semana levava alguns para passear comigo, levava-os à Missa; era difícil ficar sem eles...
 

Com o passar do tempo, dobrei minha carga horária e ficava na clínica o dia inteiro. Organizávamos desfile cívico nas ruas de Corrêas, festa junina, celebrações de Natal e Páscoa, e em tudo isso eu buscava apoio na juventude do Movimento, o que acabou se tornando uma Pastoral.
 

Iniciei então os trabalhos de preparação para a Primeira Comunhão, para a qual recebi o apoio do bispo e do pároco local.
 

Para minha alegria, em onze de dezembro daquele ano, Quinha, meu querido amigo, se ordenou. Esse dia foi emocionante, e logo na semana seguinte o convidei para ser o confessor dos meninos.
 

Eu imaginava onde Deus nos colocou, a mim e a ele – cada um na sua Missão. Ele saiu do confessionário muito emocionado com o que ouvia dos meninos.
 

A Primeira Comunhão aconteceu na Capela de Santo Tomás de Aquino, no Retiro, e foi celebrada pelo querido Pe. Jorge (Debréia).
 

Um fato emocionante de que me recordo foi que eles não tinham roupas nem sapatos... Então consegui no Seminário Diocesano túnicas brancas dos seminaristas. Mais uma vez, voltei ao Seminário, e eles vestiram as túnicas que um dia eu recusei vestir. Agora Deus os envolvia neste mesmo Mistério. E como não tinham sapatos, eles ficaram descalços – este símbolo muito me fez pensar que de fato a terra em que eu entrava era uma terra santa, um universo a ser explorado, conhecido e anunciado.

Alexandre: o pequeno monitor
A psicóloga da clínica, em uma reunião pediu aos professores que em cada sala houvesse um monitor e logo designou para a turma de religião Alexandre – aquele menino que no primeiro dia me chamou e perguntou se eu queria ser seu pai. Ali começaria uma longa experiência de vida, tanto para ele quanto para mim.
 

Ele era um jovem totalmente perdido, abandonado pelos pais desde os seis anos de idade, sem referência qualquer de família; era um garoto causador de muitos problemas à equipe médica da clínica. Tomava uma medicação pesada e vivia quase todo tempo dopado. Aos poucos, fui vendo a pessoa humana que ele era, e como ele seria resgatado se de fato fosse amado...

Os anos se passaram, vieram outras turmas de religião e o grupo de jovens Especiais que comungava aumentou. Assim começou a perseguição dentro instituição; o trabalho ganhou porte, estava dando certo e começou a incomodar a muitos.
 

Alexandre começou a sofrer repressões, e volta e meia estava internado em casas psiquiátricas. Meu pagamento começou a faltar, e tudo foi feito para tentar fazer com que eu desistisse.
 

Também comecei a testemunhar fatos e situações que me desagradavam muito. Coisas sérias demais e que fugiam completamente ao meu controle e possibilidade de intervenção.
 

Houve um Natal em que eu fui ficar com eles, e nossa ceia foi constituída de chuchu com arroz.
 

No Natal seguinte, alguns deles pediram que eu os levasse para minha casa, e não pensei duas vezes: levei seis comigo. Quando cheguei em casa, meu pai saiu da mesa e me disse: “Quando você tiver a sua casa, você os leva lá! Aqui eu não quero que eles venham mais!” Creio que eles não perceberam. Dei-lhes um bom almoço e depois os levei para passear na casa do Elísio, e aí o Natal se completou.

Primeiro contato com os pequeninos
Além das aulas de religião, me foi pedido para acompanhar as crianças especiais pequeninas, aquelas que só ficavam no berço. Eu deveria ensiná-las a comer, andar, se vestir (AVD – Atividades de Vida Diária). Aí a experiência ficou maior ainda, pois ali vi o quanto eu tinha que amar, voltar a ser criança e retornar muito à família. Nesta sala conheci Sandro, Daniel, Marco Aurélio, Alex, Felipe, Marcelinho, Miguel. Eles eram todos pequenos. Sandro e Felipe eu ensinei a andar. Assim fiz da minha sala uma pequena casa, onde eu tinha tudo deles: roupas, material de higiene (pedia aos amigos que ajudassem). Dava aulas de Ensino Religioso de manhã e de estimulação à tarde. Era o tempo todo na clínica. Estava todo envolvido com o trabalho do Movimento Semente e da clínica. Contudo, vivia sem dinheiro, pois faltava o salário e tudo mais, e as cobranças da família para eu conseguir outro emprego começaram. Várias ofertas foram feitas, mas eu não conseguia deixá-los, pois era como alimento para mim, estar com eles.
 

O grande sinal que veio com a dor Lembro-me dos dias frios que fazia em Petrópolis, e quando um dia fui levar a turminha pequena no berçário. Ali Deus me esperava – e se apresentou de uma forma diferente para que eu pudesse ver a Sua vontade.

Ao chegar, encontrei o berçário iluminado por uma luz muito fraca. Vazava água do banheiro e algumas crianças brincavam nela. As crianças que estavam no berço usavam cobertores “de peleja”. Ainda hoje, posso ver o olhar do pequeno Miguel, hoje um de nossos acolhidos; era dor, uma dor profunda e silenciosa, mas que gritava dentro de mim.
 

Fui tomado por uma intensa ira e me pus a brigar com Deus. “Por que aquilo tudo?” Se era aquilo que Ele queria para aqueles seus filhos, eu não queria mais fazer parte daquela história. “O Senhor não pode permitir isso!”, gritava o meu coração. Por alguns minutos, aquela dor parecia não acabar e eu buscava uma resposta. Eles e eu estávamos sós. Eu ali também era um Especial me deparando com as mesmas misérias. E naquela solidão, pude experimentar Deus querendo me falar alguma coisa. Era como se ouvisse dentro de mim: “Dê tua vida a eles, fica com eles”. E então uma torrente de alegria e paz inundou todo o meu ser; eu ainda não entendia o que Deus queria, mas sabia que ele queria algo – que aquela história poderia ser mudada, e de alguma forma Ele contava comigo.
 

Hoje, ao rever e refletir sobre tudo isso, consigo ver porque Deus trouxe ao meu coração tanto vazio naquela tarde na porta do seminário: a clínica ficava há dois quilômetros dali, ali estava o início do quebra-cabeça:

- Vinha também o Sr. João Batista e tudo o que ele me anunciou quando falou: “Meus filhos são excepcionais, cegos, surdos, paralíticos”.
- Vinha o abandono dos pais do Rodrigo e o acolhimento que fiz há ele dez anos antes.
- A razão de eu não dar aula de religião em Teresópolis.
- A catequese para o jovem Especial Reginaldo.
- O curso de Catequese Diferencial apenas para “encher o currículo”.
Era como um jogo de encaixe. E isso, percebo agora...
É a metodologia de Deus.
É a linguagem simples.
É a linguagem do abandonar-se.
E Deus ali me pedia a vida para que eles tivessem vida.
Aquele chamado tão insistente agora era ouvido e eu, via a resposta nascer em meu coração.

 
Capítulo VII
Discernir o momento
Capítulo VII - Parábolas de Corações Especiais
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No dia seguinte, partilhei com Cleber e outros o que havia acontecido e como eu percebia toda essa manifestação da Vontade de Deus em mim. Ainda não conseguia ver nitidamente o que Ele queria. No meu interior, eu sentia uma enorme vontade de largar tudo e ir cuidar deles dentro da instituição, esse era o meu maior desejo. Ficava cheio de sonhos, imaginando como poderia fazer para tirá-los daquela dor.

 

Também aproximava já o tempo em que deveríamos entregar a coordenação do Movimento Semente. Assim, logo resolvemos marcar uma reunião com nosso bispo D. José Fernandes Velloso. Cheguei ao palácio episcopal muito ansioso, entre muitos assuntos o principal era contar o que aconteceu comigo ao bispo e o meu desejo. Ele me recebeu muito gentilmente, como sempre o fez até o fim de seus dias; sempre muito educado e acolhedor. Depois dos assuntos do Movimento,

ele aceitou nossa reivindicação de entregar a coordenação, o que aconteceu em agosto daquele ano.

 

Quando eu falei da clínica, que ele já conhecia, pois sabia da Catequese e da Primeira Comunhão deles que era em junho, falei da dor que senti vendo-os sofrer. Ele, atento, me falou de sua experiência no Cotolengo de Turim, Itália, onde já havia passado um tempo e por este motivo entendia bem o que eu lhe narrava. Eu disse: “Será que tudo isso não é coisa da minha cabeça, pois estou muito envolvido emocionalmente com eles?”. Disse D. José: “Não, eu digo: Amém! Mas entenda: Deus quer outra coisa, não vá morar lá, isso não vai mudar a situação deles, pois ‘pobres sempre os tereis’... continuem se encontrando; rezem, passem esta ideia a= outros, e venha aqui que eu vou acompanhar tudo. Sinto que Deus quer uma coisa pequenina. Tudo na Igreja começa pequeno. Não tenham pressa”.

 

Saí do palácio com mais interrogações do que antes, pois parecia que o bispo havia jogado um balde de água fria na nossa vontade de ajudar as crianças. Continuamos nos encontrando e levando a ideia a outros: o Movimento tinha muitos grupos e muitos se envolveram e assim queriam também participar da tal ideia que ninguém sabia o que era e onde ia dar.

 

O Nascimento da Comunidade

Marcamos então a primeira reunião, que aconteceu na casa da Sandra, hoje psicóloga da Comunidade. Na ocasião era época de Natal, fizemos um amigooculto, foi o primeiro momento em que estávamos todos juntos para partilharmos esta ideia. Lembro-me da alegria de Geninho e Carmélia, pais da Sandra, que acolheram, em sua casa, o grupo ainda meio sem rumo.

 

Ali pensamos e rezamos para ver o que Deus estava pedindo. Nasceu o desejo de viver em comunidade, de nos reunirmos em comunidade.

 

Assim brotou em mim o desejo de que todos nós nos uníssemos e trabalhássemos para aliviar o sofrimento dos meninos, e então pude ver que não estava só. Todos estavam comungando a idéia de ficarmos cada vez mais juntos.

 

Era um sentimento muito forte que nos unia, pois todos nós já éramos amigos, e o Movimento Semente nos aproximou muito. Éramos jovens de Itaipava, Corrêas, Cascatinha, Petrópolis. Esta unidade era como um sinal, uma luz em nossas almas, e começou o discernimento sobre que Deus queria de cada um de nós.

 

Voltamos a conversar com D. Veloso e falar que parecia ser um desejo de todos viver em comunidade, talvez uma comunidade de vida em torno da clínica, e assim ajudá-los mais. D.Veloso pediu muita cautela, disse que conhecia= o Movimento dos Focolares e conhecia esse estilo de vida, porém era tudo muito novo, pediu para caminharmos com cuidado e nos deu um tempo de dois anos.

 

Dia onze de dezembro, tivemos a nossa última integração do Movimento Semente como coordenadores deste Movimento, e no final, apresentamos todo o grupo ao Movimento. Daí nascia a Comunidade dos Semeadores de Cristo (primeiro nome da Comunidade). Assim todos ficaram conhecendo aquele sonho que ainda era um sonho nosso. Nesse mesmo dia, acontecia a Ordenação do Pe. Quinha.

 

Em outra visita ao Bispo, pedimos um sacerdote para nos acompanhar, pois queríamos caminhar com a Igreja, e ter todas as orientações. Assim D. Veloso designou Pe. Jorge (Debréia), recém ordenado, para nos acompanhar. Nos encontrávamos todas as quartas-feiras, na sala junto à Igreja do Rosário, cedida por D. Veloso.

 

Novos amigos

Eu e outros membros fizemos o Cursilho e ali conhecemos Luís Antônio e sua esposa Beth. Eles, juntamente com Beto (hoje marido da Sandra) escreveram o Estatuto Oficial e foram organizando a parte legal da Comunidade.

 

Momento de tribulação

Passam-se os meses e o trabalho vai ganhando forma, a notícia vai se espalhando e aí vêm os prós e os contras. Cada qual vivia em sua paróquia, pois ainda não existia a casa. Cometemos muitos erros, pois todo início é muito difícil. Falhamos muito e o ativismo nos levou às lagrimas.

 

Começaram as perseguições vindas de todos os lados e iniciou-se então uma crise com alguns sacerdotes que não entendiam onde iríamos chegar; para nós, que pretendíamos estar sempre muito unidos à Igreja, foi um terrível sofrimento.

 

Lembro de D. Veloso sempre conosco, nos pedindo calma e prudência. Ele ouvia os padres que iam até ele pedindo que restringisse nossa participação na Igreja, pois poderíamos manchar o nome da Igreja, que tudo era muito precoce, e pediam que ele desse um basta em tudo. Até reuniões do clero foram feitas para tratar desse assunto, porém o bispo caminhava conosco, sábio e amigo.

 

Os estatutos foram registrados como Comunidade dos Semeadores de Cristo e assim, toda a documentação.

 

Para nos conhecermos melhor, procurávamos sempre ter retiros de comunidade, dias de convivência com as crianças na clínica, noites de oração e retiros de carnaval. É bom lembrar que Alexandre, Alex e Marcelinho estavam sempre conosco.

 

A proposta de Luís e Beth

Já se completavam os dois anos de caminhada, era carnaval de 1990. Mesmo com toda a crise, resolvemos procurar uma casa e fazer o que o bispo aconselhava: fazer nascer algo pequeno, simples e dali partir. Em um desses retiros, Luís e Beth em uma oração junto ao Sacrário, nos levaram à consciência da responsabilidade das vidas que esperavam por nós, e disseram:

 

“Há dois anos, Deus está nos preparando, já sabemos o que nos espera, agora é preciso dar um passo. Já vimos o que Deus nos pede através de sinais: que devemos ser pobres, castos e obedientes à Igreja, e acolher inicialmente Marcelinho e Alexandre”.
 

Éramos uns trinta componentes da então Comunidade dos Semeadores de Cristo. Luís disse: “Deem um passo à frente do Sacrário os que querem ir morar na casa”.


Assim, somente cinco deram este passo, e os outros se colocaram à disposição para ficarem como amigos e benfeitores da Comunidade.


Nessa época, havia em Cascatinha um grande amigo, Pe. Dilson Passos Junior, que nos apoiou muito e nos incentivou. Suas palavras nos impulsionavam a buscar essa vida e de fato experimentar Deus.

Era a hora
Desfazer-se de tudo: família, trabalho, namoro, e buscar vivenciar aquilo que o coração aparentemente estava decidido.


Devido às muitas perseguições que Alexandre vinha sofrendo na clínica, resolvi não deixá-lo mais passar os fins de semana lá e o levava para minha casa. Meus pais começaram a não concordar e também não queriam que eu o levasse para casa. Estava já sem casa para deixá-lo. Recebia muita ajuda da Jaqueline Cleffs e sua família, e nesta jornada chegou outro casal: Araújo, que era membro do Grupo Santo Agostinho, e Silvana, sua esposa. Eles com toda a sua simplicidade o acolheram por muito tempo em sua casa. Foram verdadeiramente os primeiros pais que ele teve. Todos os finais de semana eu o trazia às seis da tarde de sextafeira e o apanhava às sete da manhã de segunda, quando ia trabalhar.
 

Ali Deus nos mostrou o sentido da Comunidade: ser mesmo uma família, pois todos os membros acolheram Silvana e Araújo como pais da Comunidade.
 

Primeiro trabalho pastoral juntos
Pedimos ao Pároco de Itaipava se poderíamos dar Catequese na escola da Serra de Teresópolis, e nos foi concedido. Todos os domingos subíamos a Serra na Kombi que pertencia ao Ir. Fernandes, do Lar São João de Deus, que nos emprestava com muito carinho. Ali ficamos até formar os jovens para Primeira Comunhão e Crisma.

Os dias iam se apertando, os cinco que deram o nome para morar na casa começaram a sofrer tribulações individualmente.


A situação de Alexandre ficava cada vez mais difícil. A clínica parecia perceber que eu ocultava alguma coisa, pois não contei aos donos o meu sonho, por medo deles fazerem algo com Alexandre e Marcelinho. Marcelinho também foi outra criança que outro membro se sentiu tão envolvido que ficou mais forte essa vontade de ficar mesmo com eles.

Deus vai desenhando em meu coração seu desejo...

Resolvemos rezar a fim de que Deus nos mostrasse onde ele queria a casa. Inicialmente alimentamos o sonho de conseguir um grande sítio em Itaipava, com piscina, campo, todo plano. Esse sonho era muito forte para nós, até a planta da construção já tínhamos idealizado. Era um terreno de mais ou menos 32.000 m². Mas afinal, percebemos que era um sonho nosso e não de Deus. Foram feitas várias iniciativas e procura em março de 1990.
 

Nessa época, um grupo de amigos foi a São Paulo participar de um festival de música sacra e conheceram um grupo da Comunidade Senhor da Vida, de Jacareí, São Paulo, que também era uma comunidade de vida e que seria bom, conhecê-la. Fiz contato com a Nair, fundadora da Comunidade, e marcamos a visita.
 

Fomos em um ônibus especial com cinquenta pessoas buscar aquele modelo, e todos eles só nos incentivaram em nosso ideal. A Comunidade Senhor da Vida mantém o Hospital São Francisco, e lá vivem casais e pessoas solteiras. Tudo isso nos levou a querer mais ainda abraçar nosso ideal. Até hoje somos comunidades irmãs, e uma alimenta à outra. Todas as vezes que viajamos a São Paulo com nossos acolhidos é lá que ficamos.

Meta: achar a casa
Acordei um sábado, e junto com Alexandre e outros fizemos jejum e nos propusemos sair a pé perguntando se havia alguma casa para alugar. Compramos o jornal e vimos que havia uma casa no Roseiral. Corremos para a imobiliária e o moço nos deu a chave, disse que havia outra pessoa na nossa frente, mas para que mesmo assim fôssemos ver. Confesso que em meu coração passavam-se dúvidas, medo, era um começar de novo algo que eu não tinha planejado para minha vida. Mas deixava esse pensamento e partia com a força interior que brotava do meu coração. Fazê-los felizes e ficar com eles: isso me impulsionava sempre mais...

Voltamos à imobiliária no outro dia e o moço já havia alugado a casa, mas ele nos falou de uma casinha na Rua Carvalho Júnior nº 278, em Corrêas. Ele pediu pra eu ir falar com a dona, pois achava difícil ela alugar por termos dois Especiais, e falamos para ele que éramos um grupo de jovens que queria ajudar ao Marcelinho e ao Alexandre.
 

Chegamos lá, fomos recebidos pelo Vander, filho da Srª. Vandilza, que nos mostrou a casinha nos fundos da casa dele. Era uma casa de três cômodos e um pequeno terreiro. Meditei bastante no que D. José havia nos pedido: Deus quer algo pequeno.


Vander nos falou que sua mãe estava viajando e que voltaria na segundafeira, quando ele falaria com ela. Pedimos para que ele guardasse a casa para nós, pois achávamos ser ali o lugar onde Deus nos queria, pois assim eu poderia ficar mais perto da clínica.


D. Vandilza aprovou. Levamos o contrato à imobiliária e começamos a correr para conseguir as doações para montar a casa. Fizemos um encontro com a Comunidade e cada um se responsabilizou por conseguir algo para a casa. As meninas fizeram chá de panela. Em tudo muita simplicidade e muita força de vontade.
 

Chega o dia da mudança
Dia vinte e sete de julho de 1990, dois anos após ter sido tocado por Deus a fazer algo por eles, iniciava ali a grande resposta, ou um grande caminho iniciava seu percurso.

 

No primeiro dia, não tinha móveis. A Kombi com os móveis doados quebrou e não conseguiu chegar, então Alexandre e Marcelinho, junto de mim, Antônio Carlos e outros dormimos no carpete pequeno da casa, com duas mantas que levamos de casa.
 

No outro dia, tudo se normalizou. Resolvemos então ficar na casa somente nos finais de semana, pois alguns ainda precisavam definir com seus pais essa aventura. Outros ainda trabalhavam, e como Deus cuida de nós, ele começou Sua obra em nós. Éramos cinco, e dois inicialmente perderam o emprego e resolveram
ir morar direto. Devanir, como jovem solteira, se colocou disponível e logo foi morar na casa e junto de mim e de outro membro acolhíamos Marcelinho e Alexandre. Marcelo e Genelci trabalhavam e vinham no final do dia.

Eu continuei trabalhando na clínica. Já nessa época havia saído de casa também. Um dia, peguei minhas coisas e com muito Amor coloquei no coração: “Hoje vou seguir o meu chamado”. Sentia que Deus me acompanhava, e que estava fazendo a melhor coisa.
 

Eram uma grande festa, os finais de semana; pois todos os membros iam se encontrar lá, cada um levava uma coisa e nós repartíamos o trabalho de casa. Aquela pequena casa era, para cada um de nós, o nosso próprio coração. Era a pequena Nazaré, ali Deus trabalhava nossas almas para o que nos pediria no futuro.
 

Fui convidado para fazer uma palestra no Cursilho e lá conheci Paulo Eduardo. Ele me contou que junto com sua namorada Andréa visitava a clínica aos domingos, que tinham muito Amor pelos meninos que lá viviam e que gostariam de caminhar conosco e conhecer nosso trabalho.


Um amigo é um tesouro
Deus continuava a abençoar nossa pequena obra e parte dessa bênção vinha por meio das pessoas que se juntavam a nós.

 

Em uma manhã, enquanto trabalhava, nosso amigo Célio trouxe o irmão para nos conhecer. Era um jovem cheio da graça divina, com grande disponibilidade para servir. Enquanto andávamos pela casa, pude perceber que ele se sensibilizava com tudo aquilo; aquele momento seria o início de uma grande amizade. Zeca, como era chamado, ia à clínica todos os dias e podia-se notar o crescente zelo dele por aqueles irmãozinhos.
 

Zeca fez o Cursilho. E daí não parou mais. Nossa amizade foi amadurecendo e sua participação também; foi ele quem doou a primeira antena parabólica para nossa casa e ainda nos dava uma cesta básica por semana.


Brasília amarela e casa nova
Nosso primeiro carro foi uma Brasília amarela que pertencia à Devanir, primeira vocação feminina da Comunidade. Este era nosso transporte para tudo: médico, feira e muitas outras coisas mais.

 

Desta primeira casa, em frente D. Vandilza tinha outra casa, onde morava um casal que acabou se mudando por nossa causa. Assim que eles se mudaram, fizemos uma proposta de reformar e alugar aquela casa. coração. Fazê-los felizes e ficar com eles: isso me impulsionava sempre mais...

 
Capítulo VIII
Primeiro ano de casa
Capítulo VIII - Parábolas de Corações Especiais
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“Não vos peço que os tireis do mundo”...


Ainda que a obra seja de Deus, estamos no mundo e o mundo tem suas complicações. Como nosso trabalho na casa crescia, os membros não poderiam mais exercer trabalho fora dali. Mas havia o aluguel, a alimentação... que eram pagos por meio de doações.
 

Assim, foi necessária a criação do Conselho que, uma vez tendo aprovado os estatutos, organizou toda a parte burocrática.


O Conselho estudou as metas para a outra casa e começamos a reforma. Zeca trouxe todos os seus funcionários aos sábados e domingos e logo a casa estava pronta. Com os cômodos maiores pudemos nos estruturar melhor.
 

Neste período, começaram a chegar as novas vocações e assim íamos nos aproximando de nosso ideal.
 

Em 1992 nasce a primeira escolinha
Com a reforma da outra casa, a primeira se tornou uma escolinha para as crianças Especiais do bairro. Fizemos como um censo, indo visitar as famílias e comprovamos quantos especiais viviam em casa. Com a escola, pudemos fazer este paralelo entre nossa família e as outras famílias. E nesse período, crescemos muito e pudemos ajudar a muitas famílias. Também neste período, vieram os primeiros voluntários, como fonoaudiólgos, fisioterapeutas, psicóloga e professores. Assim a Comunidade ia ganhando espaço.

A chegada de Fabiano
Ele veio trazido por um casal que era voluntário, entrou na casa, deitou na cama e não quis mais ir embora. Daí seus pais vieram mesmo a se separar e ele ficou definitivamente conosco.

 

A chegada de Rita e Miguel

Primeiros dias de Miguel na Comunidade

Rita, que é natural de Itaipava, já havia sido ajudada por mim e Quinha, quando ainda nas visitas, a encontramos muito pequena. Agora sua família, que vivia muito próxima aos meus pais, pediu se poderíamos acolhê-la, e assim em janeiro de 1992, ela veio morar conosco.
 

Miguel era meu aluno na clínica, e eu sempre cuidei dele. Estava muito doente, no hospital com tuberculose, precisando de ajuda. Zeca e eu fomos visitá-lo e o encontramos muito mal. Vimos que precisava de Amor e cuidado. No outro dia, conversei com o médico, apanhei a medicação, passei com ele na clínica e pedi ao responsável se poderia ficar com ele no período de sua doença. Ele permitiu e Miguel ficou um ano conosco e nunca mais voltou, pois ali era agora sua nova família. primeiros dias de Miguel na Comunidade

Nosso encontro com a Comunidade da Arca
Em Petrópolis, existe o Movimento Fé e Luz. A sua responsável me convidou para conhecê-lo. Lá eles me falaram sobre a Comunidade da Arca, pois parecia ser o nosso modelo de vida. Fomos a São Paulo conhecer a Arca, e um grande desejo de pertencê-lo nasceu em nós. Como podíamos ter o mesmo espírito? A Arca era um modelo de nossa convivência, voltamos muito otimistas.

 

Em sequência, veio nos visitar Maria Sílvia, então responsável pela Arca do Brasil, e os laços foram se estreitando. Em conjunto com os Conselhos Administrativos nosso e deles resolvemos caminhar para saber se poderíamos ser comunidade irmãs. E para isso, os membros de Petrópolis deveriam fazer uma experiência de um mês junto à Arca de São Paulo. Cada mês iria um de nós e o processo seria bastante longo. Nessa época somente eu e Marcelo trabalhávamos. Pedi férias na clínica para que pudesse fazer a experiência na Arca. Em setembro viajei a São Paulo e deixei a casa com os outros membros.


Alexandre sofre um grave acidente
Num domingo, catorze de setembro, ao atravessar a rua para ir à Missa, Alexandre é atropelado por um carro, que logo presta socorro. Os membros que estavam com ele ficaram apavorados com a gravidade do acidente. Zeca é chamado para ficar perto dos membros e ajudar, e junto com Luíza e Jaqueline o conduzem ao hospital.

 

Eu, em São Paulo, não sabia de nada. A clínica não sabia que eu estava em São Paulo e que Alexandre estava com os membros da Comunidade, que pensaram em não me falar nada. Mas passados três dias, resolveram me ligar.
 

Viajei de volta, cheguei cedo a Petrópolis e antes de visitar Alexandre fui até a clínica para contar o fato ocorrido e falar sobre a Comunidade. A responsável, em tom desconfiado, disse que sabia de tudo, mas esperava que eu falasse, e na hora não criou nenhum problema.
 

Minha demissão da clínica
Assim me vi obrigado a pedir demissão, pois precisava cuidar agora de Alexandre, que passou seis meses acamado e por diversas cirurgias. Vi em tudo isso Deus falando muito forte com todos nós.

Ao deixar a clínica, sentia que deixava ali uma história para começar a outra, mas entendia que as coisas não paravam por ali.

 

Alexandre ia ao médico com frequência para avaliações. Em uma dessas idas, me senti um pouco fraco e sonolento. O médico perguntou se eu estava me sentindo bem, ao que respondi que estava apenas cansado. Ele me mandou procurar o Hospital Municipal, pois parecia que eu estava com hepatite. Agora os dois que trabalhavam fora tiveram que largar o emprego, pois era Alexandre em uma cama e eu na outra.
 

Chegada do Daniel

Os primeiros dias de Daniel na Comunidade

Eu sempre amei Daniel como a um filho. Sua fragilidade, sua dor me falavammuito. Faltava acolhê-lo e, graças a Deus, dois membros do nosso conselho e um amigo puderam encontrar sua mãe e, com seu assentimento, o trouxeram até a nossa casa. Ele foi acolhido no dia do meu aniversário, doze de junho de 1993. Foi um grande presente para mim. Agora a família estava completa, e Deus desenhava nossa Missão agora com a fragilidade de Daniel.

A crise com as pessoas da Igreja
A crise se alastra e os comentários são os piores. Somos chamados de bando de loucos, acusados de ativismo, o assunto na Diocese é um só. D. Veloso nos chama e pede para trocar o nome da Comunidade e refazer o Estatuto, pois um sacerdote se sentiu ofendido por colocar o nome da Comunidade de Semeadores
de Cristo. Pede também que sejamos obedientes a nossos párocos, para não haver mal entendidos.

 

Não tínhamos dúvida em obedecer ao bispo, mas voltamos tristes pois entendíamos que Deus testava a obra, e então por votação nasceu o nome Comunidade Jesus Menino, expressando nosso carisma de acolher Jesus criança. Assim tivemos que refazer os estatutos e toda a documentação.
 

O retorno à Igreja
Muitos vinham nos visitar e podiam comprovar que o que falavam eram somente exageros.

 

Como eu dava aulas em Itaipava em um colégio particular, não pude fazer a Primeira Comunhão dos alunos. Assim os membros me deixaram e foram fazer a Primeira Comunhão dos alunos, e levaram Alexandre, Marcelinho e Fabiano.
 

Como eram poucos e havia um padre para celebrar que havia vindo do Rio de Janeiro, o pároco local se ofereceu para ficar com a Igreja para que os membros pudessem fazer a cerimônia. E o pessoal contou que o padre pegou os meninos no colo e se emocionou. Em seguida, se dirigiu aos membros no término da Missa e se colocou à disposição para nos ajudar, dizendo: “Então é isso que vocês estão fazendo! Podem contar comigo e com minha Paróquia”. Sendo ele um dos que mais nos perseguiu, agora se rendia ao Amor dos meninos. E daí então a crise começou a se amenizar.
 

Pe. Quinha se tornou pároco de Corrêas. Era outra estratégia de Deus. Era um presente tê-lo comigo na mesma Paróquia, dez anos depois nos reencontrávamos. Agora eu seria alimentado pelo Corpo e Sangue de Cristo vindo daquele que tantas vezes pude alimentar com nossas partilhas e orações. E seu apoio foi total, as portas começaram a se abrir.

A chegada de Pe. Gilson
Como já mencionei, tínhamos uma sala na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, e de vez em quando me encontrava com Gilson, seminarista que trabalhava com a Ir. Geana na Pastoral Vocacional. Eu rezava para que quando ele fosse padre, pudesse vir para ser nosso diretor espiritual. Uma vez cheguei a falar isso com ele. Mas um ano depois ele foi estudar na Espanha e depois em Roma.

 

Em quatro de agosto de 1991, depois de sua ordenação, dei um abraço nele e falei rápido do nosso desejo. Depois nos encontramos pessoalmente e falei com ele, que me pediu que eu falasse com D. José, que permitiu que ele fosse nosso diretor espiritual. Foi um retorno à Igreja. Agora Pe. Gilson, com seus conselhos, iria nos fortalecer.
 

Escrevemos com ele a regra interna, logo pudemos ir também conhecer a casa para retiros Foyer de Charité, e nasceu conosco outra comunidade. Ficamos mais fortalecidos com os retiros do Foyer, eram muito bons e frutuosos os conselhos de Pe. Constant, Madô e outros membros.
 

Pe. Gilson passa a acompanhar de perto a Comunidade e as coisas vão ficando mais claras.
 

 

D. José vem nos visitar

A vinda de nosso bispo à Comunidade foi um dia inesquecível. D. José confirmava que estava na pequena Nazaré, e pedimos a ele nossa Capelinha. Ele nos mandou preparar uma sala e reforçar as portas e janelas e assim, depois poderíamos colocar o Sacrário.
 

Tudo foi feito com muito zelo; falamos com o Pároco e pudemos ter nosso Sacrário. O primeiro sacrário foi doado pelos Irmãos Beneditinos do Mosteiro da Ressurreição de São Sebastião do Alto, Rio de Janeiro.
 

Nasceu então o breviário próprio da casa e adotamos como vida diária a celebração da Palavra, o Angelus e o Terço às seis da tarde. A vida de oração vai dando moldes de vida consagrada à obra Jesus Menino.


Minha consagração total
Após alguns retiros no Foyer de Charité, senti que deveria agora pedir ao Pe. Gilson que falasse com D. José sobre a minha consagração. Após um tempo discernindo vimos que seria algo muito simples como pediu D. José, pois era o primeiro leigo consagrado. Ele não sabia como fazer isso, então Pe. Gilson viu que chamaríamos de engajamento à vida consagrada e faríamos nos moldes do engajamento do Foyer: em uma Missa simples e com muitos amigos, no dia 15 de novembro de 1993 disse meu sim definitivo a Deus, e tive a alegria de ter Pe. Gilson como celebrante oficial e Pe.Quinha e Pe. Mario concelebrando.

 

Pe. Quinha emocionou a todos contando nossa trajetória de jovens vocacionados. Assim Deus selava mais uma vez Sua vontade em nossas vidas.
 

A Missa
A Missa aconteceu na capelinha de São José no Caetitu, uma localidade próxima de nossa casa. Entre amigos, benfeitores e toda a comunidade local, a Missa emocionou a todos. Era uma bela tarde de verão e ali, junto com os nossos acolhidos e um bom grupo de crianças da clínica, eu pude dar o meu sim definitivo a Deus. Sabia que daquele sim Deus ia fazer prosperar e tudo viria como resposta dessa simples doação.

 

Os acolhidos vibravam com a festa e toda a celebração. Eles, mais do que todos os presentes, entendiam que Deus me usava como instrumento para ficar com eles, agora, definitivamente.

Após a Missa, tivemos uma linda festa organizada pelo Conselho de Administração. Essa festa foi na nossa casa. Ali aconteceram coisas muito positivas: meus pais puderam ir e conhecer nossa vida e diversos amigos da Diocese puderam ver de perto o projeto de família que estávamos desenhando para nossa vida.

 

Como eu sempre fui muito fã de festa e de bolo, não faltou o tradicional bolo, decorado com a Cruz e a Rosa, símbolos da Missão de amar, amar até o fim.

Tônio e Padre Gilson

Consagração do Tônio em 15 de novembro de 1993

As irmãs de Sion na nossa vida

Após a minha consagração, ganhamos amigas mais que especiais: as irmãs de Sion. Elas eram as responsáveis pela capelinha de São José no Caetitu. Marcelo, um dos membros, foi pedir para a Missa ser lá. Elas deram todo o apoio. Nós as convidamos Consagração do Tônio em 15 de novembro de 1993 Tônio e Padre Gilson para participar desse momento que, segundo elas, foi um estímulo à sua vocação, pois ainda não haviam visto os leigos se consagrarem.
 

No outro dia, Ir. Martha Maria, coordenadora da casa, me chamou no sítio e falou de sua alegria em ter conhecido a Comunidade e de como a consagração mexeu com seu coração. Assim, elas abriram as portas do sítio, onde todos os nossos retiros passaram a ser feitos. Também doavam leite e verduras semanalmente. As irmãs de Sion se tornaram, como eu dizia à Ir. Martha, nossas madrinhas. Fizemos muitos encontros lá e muitas vocações nasceram naquele sítio.
 

Naquele ano, para nossa surpresa, todas as irmãs, algumas já bem idosas, vieram celebrar conosco o Natal. Trouxeram aquilo a que elas eram mais apegadas e doaram como num gesto a Jesus Menino.
 

Essa contato entre nós hoje não acontece mais, pois as irmãs foram para outra localidade, fechando assim o sítio, mas ficou uma forte amizade, nascida no dia da minha consagração.
 

As irmãs do Carmelo
Sempre quando estava muito sozinho e as cargas ficavam pesadas, ia ao Carmelo e sempre ouvia os belos e sábios conselhos de Ir. Bernadeth. Confiei às irmãs carmelitas nossa casa, como nossas madrinhas especiais de oração.

 

Hoje creio que em tudo o que faço e todo o crescimento da obra se deve à oração das irmãs do Carmelo. Esse conselho foi um amigo que me deu: “Se tem Carmelo na cidade, entrega o trabalho à oração das irmãs, e você vai ver...”.
 

Depois da festa, vivenciar um momento de profunda dor

Em um de nossos passeios de férias, Alexandre nos deu um grande susto: em um sábado à noite ele desapareceu. Fomos a diversas delegacias, hospitais e necrotérios, e nada. Era um sumiço misterioso e meu medo era que acontecesse algo mais grave e nós perdêssemos nossa credibilidade.


Imaginava até que ele estivesse morto, então resolvemos falar com o Conselho Administrativo, e Paulo e Wilzo desceram para Araruama, onde estávamos passando as férias. Resolvemos ficar um grupo lá e outro vir embora.

Quando deixei a casa, tive a sensação de fracasso, pois novamente Deus nos colocava à prova. Naquela hora, era preciso ser forte e não parar. Alexandre ficou sumido por oito dias. Lembro que eu, Lurdinha, Daniel e Miguel viemos embora e os outros ficaram em Araruama.


Eram seis da tarde, estávamos nos preparando para rezar o Terço, quando ouvi no portão de casa alguém chamar: “Pai, sou eu! Voltei!”. Não me contive de emoção ao vê-lo voltar. Corri até o portão e dei um grande abraço nele, perguntando onde ele tinha estado todo esse tempo. Ele disse que foi visitar sua mãe, e a encontrou. O grande mistério divino é que ele não via sua mãe há mais de doze anos, e como agora tinha conseguido chegar até ela? Somente confiando nessa graça. Ele desejava muito encontrar sua mãe, e ele voltou porque ela disse que não podia ficar com ele, pois era muito pobre, e via que hoje ele tinha uma família.


Levei-o ao psiquiatra e ele disse que era possível sim que Alexandre se lembrasse do lugar onde viveu até os sete anos de idade. Isso me levou a ver que ele podia crescer mais, e assim seu espaço foi mudado e vemos o quanto ele cresce a cada dia.


Dois dias depois nosso grupo de conselheiros pegou com ele os detalhes da rua e foi até lá conferir. Eles constataram junto da mãe de Alexandre que ele tinha estado lá sim, mas que ela não podia ficar com ele, e ainda ficamos conhecendo sua dolorosa história e vendo o quanto ele precisa de nós.


Hoje ele está com trinta e seis anos, trabalha fora e leva uma vida quase normal, nas devidas proporções que ele pode atingir, claro. Eu sempre fui e serei no coração o PAI dele. Por isso ele me chama continuamente de PAI.


Campanha para a primeira Kombi
Zeca, esse novo amigo da Comunidade, me levou para ver uma Kombi no Roseiral. O dono fez um preço bom e com uma campanha e um grande bingo feito pelos casais do Roseiral conseguimos adquirir nosso primeiro veículo, mesmo já usado. Era o que tudo fazia, e as coisas começaram a facilitar mais.

 
Capítulo IX
Nossa vida religiosa se organiza
Capítulo IX - Parábolas de Corações Especiais
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O convite para o Ministério Extraordinário da Eucaristia

Foi com muita alegria que recebemos o convite para eu ser Ministro Extraordinário da Eucaristia. Agora com o Santíssimo presente, era possível fazer as celebrações em casa. E na celebração da quinta-feira Santa, realizada por Pe. Paulinho, fui investido ministro. E na celebração, fomos nos organizando e buscando um sentido de vida com, cada vez mais, intimidade eucarística.

 

Gostaria de enfatizar toda a colaboração vinda da Comunidade do Foyer de Charité e dos bons conselhos de Pe. Constant, já falecido. Também a toda a Missão da Arca, onde pudemos viver um tempo que nos ajudou a vivenciar a pessoa do Especial, e nos ensinou como organizar a vida com eles em comunidade. E Maria Sílvia, que na época era a responsável pela Arca no Brasil, e com seus ensinamentos e experiências nos fortaleceu muito.

 

Um processo para ficar mais perto

Em meu coração, pude sentir que deveríamos nos unir à Arca, e nos tornarmos uma comunidade só. Via o mesmo carisma e os ideais caminhando juntos. Assim levamos isso ao povo da Arca em São Paulo, e a passos lentos fomos fazendo uma leitura de nossas vidas e vendo como poderíamos nos tornar uma só comunidade.

 

O processo foi longo, com diversas reuniões, idas à Arca e vindas deles aqui, retiros e o todo envolvimento possível.

 

Começa a acontecer a busca da Providência

O Conselho se organiza para buscar doações. Agora temos cinco acolhidos e mais dezoito outros Especiais que estudam conosco. Os gastos começam a aparecer: comida, aluguel, remédios e toda a estrutura necessária para a obra de manter.

 

A comunidade de Corrêas abraça a Comunidade e começamos a ver Deus agindo através das pessoas. Aos sábados, podíamos ir à feira de ônibus, pois os feirantes começaram a nos ajudar com doações.

 

É possível sentir que o chamado se concretiza agora nas coisas materiais. O necessário nunca falta e nunca faltou.

 

A festa nos finais de semana

Tudo era muito simples, mas muito contagiante, pois nos encontrávamos para partilhar tudo. Era uma partilha de tudo: dor, alegria, sonhos e a vontade de construir uma nova vida. Era radiante ver os membros agora como família, vivendo a alegria de estar em casa.

 

Em dois anos de caminho, pudemos ouvir um ao outro, e ver que Deus nos unia, mas que era preciso cada um viver seu chamado. Não seríamos como irmãos, mas como primos, e nos ajudaríamos mutuamente.

 

Pudemos com alegria receber também a coordenadora da Arca da América Latina, que veio também sentir nossa vida.

 

Pe. Cláudio, OVSP se colocou também a nos acompanhar.

 

Jean Vanier, fundador da Arca, pôde acompanhar através de contato da Arca tudo isso. E creio que Deus se manifestou muito a nós, fazendo com que ambas as obras crescessem e nutrissem uma à outra. A Arca foi uma grande luz na nossa vida.

 

Após este desfecho entre nós e a Arca, Marcelo Borde, em conversa comigo, expressou seu desejo de deixar nossa casa e tentar uma nova experiência na Arca. Assim ele foi fazer sua experiência. E há treze anos ele responde seu chamado na Arca. Hoje ele mora em São Domingo, na República Dominicana, e é um dos responsáveis pela Arca na América Latina.

 

Esse é o desejo de Deus: ir formando seu povo e encaminhando tudo como deve ser. Hoje vejo porque Deus quis nos levar até a Arca e trazê-la até nós: muito mais do que nossa vontade, já era caminho e projeto Divino.

 

A compra da residência própria da Comunidade

Em nosso coração e dos conselheiros, inicia a busca por encontrar uma nova casa, e chega a hora de adquirir a residência maior e própria. Visitamos vários sítios e casas, mas nenhum falava daquilo que precisávamos, e também os preços eram muito altos e nós não tínhamos meios para isso.

 

Importante ver que visitamos vários sítios. Um dia Zeca me chamou para dar uma volta com ele, pois ia me levar para ver algo que seria bom para a Comunidade. Assim chegamos à Rua Mercedes, nº 1.000, em Corrêas. Ali havia uma casa que já estava à venda há quatro anos, e os donos estavam decididos a vendê-la.

 

Zeca, amigo sempre muito entusiasmado e disposto a ajudar, logo pergunta o preço da casa e liga para a dona, que marca conosco uma visita à nossa casa. Assim pudemos negociar melhor com ela, que ainda nos favoreceu com um prazo para o pagamento.

 

A campanha

Levei a ideia ao Elísio (aquele que me levou à clínica). Ele mobilizou quinze amigos, pessoas ligadas a nós, e também algumas pessoas da Paróquia de Corrêas, e em uma reunião conseguimos a metade do dinheiro. Foi o maior sinal da Providência. Víamos Deus agindo.

 

Nesta ocasião, pudemos contar com as irmãs de Santa Catarina, que na pessoa da Ir. Berenice nos ouviram e com total confiança nos deram a quantia necessária para pagar a parcela que faltava, assim conseguimos todo o dinheiro. Lembro que este era o dia quatro de outubro, dia de São Francisco de Assis, e ali vi o Amor vencendo.

 

Após a compra, ganhamos também o dinheiro para as devidas reformas, e em vinte de dezembro daquele ano, pudemos mudar definitivamente para a residência própria. Lembro da oração que fizemos ao deixar a casa, a pequena casa onde Deus nos reuniu para começar toda sua obra. Já pudemos passar o Natal na nova residência e Pe. Paulinho deu a bênção na nova casa.

 

Um momento difícil

Alguns dos primeiros membros que moravam conosco pediram desligamento da obra para voltarem para suas casas. Com isso, a casa ficou sem vocações femininas, e Rita teve que retornar à sua casa. Claro que isso aconteceu depois de muita conversa entre nós e Rita, e assim sua família, mesmo sem muita estrutura, viu que era o melhor.

 

Chegam novas vocações e começa a ser estruturado um novo trabalho. Pensamos em construir uma escolinha para atender às crianças Especiais, que já estudavam na primeira casinha e escolinha.

 

Pe. Gilson volta a estudar na Itália

Pe. Gilson, que sempre foi muito ativo na Comunidade e dirigia as almas dos consagrados, é enviado a voltar aos estudos na Itália. Foi uma perda muito grande para a Comunidade e todos sentimos muito.

 

Conversando com a Comunidade, Pe. Gilson sugere a escolha de um novo sacerdote, pois é fundamental a importância de um diretor espiritual na obra da Comunidade e também é a nossa ligação com a Diocese. Assim, convidamos Pe. Mario Coutinho, que no início pensou em não aceitar devido a seus trabalhos na paróquia, e também por seu pouco envolvimento com a Comunidade. Mas depois aceitou e caminhou pouco conosco, pois o Bispo o transferiu para Teresópolis. E devido à distância ele prefere passar e pede à Comunidade para que possa indicar um novo diretor espiritual. E aí novamente começa as escolha e as conversar com os padres.

 

Construção da nova escolinha

Após a eleição de um novo Conselho Administrativo, logo iniciamos os trabalhos para o projeto de construção da nova escolinha. Levamos o projeto a um grupo de amigos, e eles, junto a um órgão

internacional, conseguem uma verba para ajudar na construção. Também conseguimos com o mesmo grupo que comprou a casa e que ajudou na construção. Elísio fez a planta, bem adequada, e em seis meses ela foi inaugurada.

 

D. José visita nossa casa

Recebemos novamente a visita de nosso Bispo, que foi fazer a bênção da nova escola e nova casa. Ele ficou muito impressionado com todo o crescimento em poucos anos, e a conquista da nova residência, hoje muito mais adequada aos acolhidos.

 

A chegada de Sandra e Jaqueline

Com o crescimento da Escolinha, fez-se necessário agora ter mais funcionários e voluntários para atender o grupo de Especiais. Sendo assim, o Conselho começou a organizar toda a parte contábil, que ficou por conta do Niécio.

 

Com isso, a Sandra veio assumir o atendimento de Psicologia. Ela, que já atendia o Daniel na antiga casa, a partir de então foi contratada e até hoje trabalha conosco.

 

Jaqueline também veio dar suporte para a escola. Assim o trabalho ficou mais uniforme, pois elas também foram fundadoras da Comunidade e o espírito do carisma da obra era mais vivido.

 

Chegada da nova Kombi

Um projeto foi enviado a uma instituição em São Paulo. Após dois anos, fomos contemplados com a nova Kombi, que foi de muita valia para nossa casa e escola.

 

Meu retorno à clínica, agora para fazer celebrações

Algo que me deu muita alegria foi meu retorno à clínica. Com meu afastamento, Zeca continuou seu trabalho com os meninos. Ele rezava o Terço todas as quartas-feiras. Agora a clínica estava sob intervenção e outra direção assumia. E para minha alegria, pude voltar e ver de novo o meu povo, e a alegria deles era que algo muito bom estava para acontecer.

 

Nossos finais de ano na casa do Zeca

Naquele ano, Zeca abriu sua casa para que pudéssemos fazer nossas festividades de final de ano. Era muito bom, pois mais ou menos sessenta crianças da clínica e mais os nossos meninos iam para lá. Era banho de piscina, churrasco e muita dança, como eles gostavam, e sempre encerrávamos com Pe. Quinha celebrando conosco.

 

Vinda do Pe. Antônio Carlos

Com a saída de Pe. Mário, pedimos ao Pe. Antônio Carlos, da Paróquia de Santa Ana e São Joaquim de Cascatinha, que ele aceitasse ser nosso diretor espiritual. Ele aceitou e então falamos com o nosso bispo, agora Dom José Carlos de Lima Vaz, que logo se prontificou a nomeá-lo. A passagem de Pe. Antônio marcou uma maior busca de santidade e de vida consagrada entre os membros. Além disso, ele nos ajudou muito acompanhando o Conselho de Administração. Com muito zelo, ele nos ajudava como podia e muito pode intervir em situações difíceis. Foi um grande amigo e colaborador em nossa relação com a Diocese e clareou diversas situações de nossa casa.

 

A chegada de Maninho

Lembro, em uma das celebrações, que Zeca me falou que Maninho estava muito mal no hospital e precisava de nossa ajuda. Ele me perguntou se poderia ir visitá-lo com ele. Terminamos a celebração e fomos ao hospital.

Parecia que Maninho não viveria muitos dias mais, tamanha era sua dor e seu abandono, seu emagrecimento visível. O médico disse que seu estado era muito grave e que diante do diagnóstico não havia esperança de melhora. Seu corpo magro, cheio de feridas e o cabelo caindo era um quadro muito chocante. Logo Zeca colocou no meu coração que era urgente levá-lo dali pois ali ele morreria mesmo, naquele visível abandono.

 

No outro dia, voltei ao hospital e o diagnóstico era mais sério ainda. Maninho no meio de nossos acolhidos poderia trazer problemas devido à sua infecção. Liguei para a Comunidade e conversei com os membros, que estavam em Adoração, colocando toda a situação. Falei que parecia que ele não teria vida por muito tempo e ouvi deles: “Então traga ele para morrer entre nós, com dignidade”.

 

Maninho deixou o hospital. Passamos na clínica e pedi aos responsáveis se eu poderia cuidar dele. Assim ele foi internado em outro hospital, onde passou três meses em tratamento, vindo depois a fazer uma cirurgia no estômago, onde se constatou que o que ele tinha era um problema gástrico devido aos maus tratos que sofreu, e que nunca tinha sido tratado. Houve diversas noites em que eu achei que ele fosse morrer. Quantas vezes pedi a Deus para não levá-lo, pois acreditava

na sua melhora.

 

Após a cirurgia, Maninho voltou para casa e ia ao médico regularmente. Voltou a ganhar peso e hoje está aqui dando em cada um que chega aquele abraço que só ele sabe dar. A todos, ele chama de irmão. Deus o quis em nosso meio para dEle receber esse carinho e afeto e a certeza de que precisamos ser mais irmãos uns dos outros.

Primeiro Natal de maninho

na Comunidade

Maninho em 1997

Maninho em 2005

 
Capítulo X
Deus começa a cumprir
seu Plano de Amor
Capítulo X - Parábolas de Corações Especiais
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A clínica passa por momentos difíceis e há comentários de que está para fechar. Todas as quartas-feiras, ouvia esse comentário e via que alguma coisa estava por acontecer.

 

Por mais que as pessoas que lá estavam tentassem reerguer a instituição, o que estava por trás era bastante complicado, e as coisas, a cada dia, iam tomando outro rumo.

 

A celebração da Páscoa de 1987: o mistério da foto

Em abril, fizemos uma bonita preparação para a Páscoa na clínica e Pe. Quinha celebrou a Eucaristia com todos os internos juntos. Foi uma celebração onde Deus falava muito forte ao meu coração. No fundo, ao mesmo tempo que me sentia feliz estava triste, pois vivia em dois mundos.

 

Os acolhidos são crismados por Pe. Paulinho

Então pedimos ao Pe. Paulinho para fazer uma cerimônia onde todos seriam batizados, fariam a Primeira Comunhão e crismados, e assim aconteceu numa cerimônia muito bonita e tocante.

 

Deus usa desses momentos para realizar seu plano e percebo que o Amor de Deus vai invadindo aquele lugar. Cremos que Deus iniciava sua obra de Amor.

 

Os missionários do México vêm ao Brasil trazendo a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. E Pe. Quinha escolhe a clínica onde a imagem deveria ir visitar. Assim, o mês de maio ficou mais rico, e foi emocionante este dia. Durante a celebração eu podia ver a solidão de algumas crianças e as preces de algumas eram mesmo de súplica. Eles trouxeram a Cruz escura e um belo quadro de Nossa Senhora de Guadalupe. Tudo aquilo descrevia que tudo estava próximo de acabar.

De fato a instituição não estava bem.

 

A nossa casa Jesus Menino ficava bem no alto e de lá os meninos viam nossa casa, e diziam: “Tônio! Um dia vou morar aí com você!” E quando isso acontecia, sentia minha alma e meu coração vibrar. Assim nessa celebração aconteceu algo muito surpreendente, algo para pensar.

 

Uma jovem fotografava o momento em que eu dava Comunhão aos meninos e meninas acamados, a Comunhão repartida em um pequeno contagotas. Ao ver as fotos reveladas, tivemos a impressão de que aparecia na minha cabeça uma ponta branca, como se fosse a Hóstia, e olhando bem dentro dela, podia se vê uma silhueta que parecia ser a Virgem Maria, como Nossa Senhora das Graças. Esta foto chamou a atenção de outras pessoas e padres. O interessante é que a primeira pessoa que percebeu isso foi uma funcionária da clínica que era protestante. Foram feitas cópias maiores e até um quadro bem grande que hoje se encontra na Comunidade.

 

Houve duas pessoas que me falaram algo sobre a foto. Uma disse: “Maria e Seu Filho Jesus pedem a você que os acolha nestas crianças, que cuide e fique com eles”. Um sacerdote amigo disse: “Se esta foto tem algo de Mistério Divino, ninguém melhor do que você mesmo para fazer essa leitura, então medite... e guarde a foto”.

 

As crianças da clínica começam a ser enviadas a outras instituições

 

Preocupava-me quando eu chegava à clínica e os próprios meninos me falavam que “fulano” foi embora, amanhã irá outro... Era o sinal definitivo de que a instituição caminhava para o fechamento.

 

Em uma visita à nossa Comunidade a secretária de Ação Social do município diz que não está satisfeita com o que vê na instituição, que o Juizado estuda seu fechamento para o início de 1998 e me propõe ficar com as crianças, a princípio todas. Mas depois, como eram crianças conveniadas, certamente os convênios iriam levá-las para outras instituições. Porém, cabia à Jesus Menino ficar com trinta e seis.

 

Com certeza, meu coração se alegrou, pois finalmente cumprir-se-ía o que Deus me pediu há alguns anos atrás. Confesso que, junto com a alegria, senti medo, pois éramos apenas quatro consagrados e tínhamos apenas uma casa já com oito acolhidos. Pesava: “como sustentá-los, com que a estrutura”? Até então éramos uma pequena casa, agora tudo iria se modificar. Porém, o desejo de vê-los felizes era maior. Mesmo em meio aquele turbilhão de idéias, disse: “SIM, fico com

eles!”.

 

Assim comuniquei ao Conselho Administrativo e a todos os fundadores e amigos nossa decisão de ficar com eles. É claro que houve quem achava-se que aquilo estava muito além do que podíamos fazer, porém todos sabiam que meu único desejo era fazer a vontade de Deus e por isso confiavam no que eu fazia.

 

Ficaram conosco trinta e seis crianças totalmente abandonadas, que deveriam, segundo o nosso carisma, serem adotadas (curatela).

 

As irmãs de Santa Catarina e a ajuda para ganhar outra casa

 

Marcamos uma reunião com as Irmãs de Santa Catarina e pudemos expor para elas nossa situação, como as coisas ficaram difíceis para as crianças, e que não tínhamos onde colocá-las. As irmãs prometeram se reunir e ver o que poderiam fazer. Saímos da reunião, animados, pelo menos, estava no ar uma esperança.

 

Uma semana depois, as irmãs nos chamam e falam que é possível fazer a doação para a compra da casa. Isso vem como uma resposta ao plano que Deus tinha para eles estarem conosco. Mais uma vez as irmãs colocam seu sim a favor dos pobres. O tempo se esgota, pois o prazo para o fechamento da clínica é dia oito de fevereiro.

 

Fomos pedir a uma ordem religiosa que pudesse nos emprestar uma casa para hospedar os membros temporariamente, até que a casa doada ficasse pronta. Fiquei muito decepcionado com esse grupo religioso, pois mesmo depois de termos exposto toda a nossa problemática, recebemos um não categórico. Se por um lado uma obra abria as portas, outra fechava. Isso também percebia como sinal de que nem tudo seria fácil, porém me via com uma enorme responsabilidade com aquelas vidas, agora confiadas a mim, como responsável pela Comunidade.

 

Zeca abre as portas da sua casa

Assim, no dia oito de fevereiro, da nossa casa, eu percebi uma movimentação lá embaixo. A clínica estava chegando ao fim. Minha cabeça estava intranquila, pois pensava o que seria daquelas crianças com quem tanto convivia e que agora estavam indo embora.

 

O telefone tocou e era o Zeca muito transtornado dizendo: “Tônio, estão levando as crianças, você tem que fazer alguma coisa! Estive lá e o Antônio Miranda quer ficar com você! Vou até aí te buscar e vamos lá ver o que podemos fazer”.

 

Em quinze minutos, estávamos lá, e pude ver que tristeza tudo aquilo. Algumas crianças choravam pedindo para eu não deixá-las ir embora. “Tio Tônio! Fica com a gente!”. Era um quadro muito triste.

 

Senti-me muito mal, pois ali conheci a minha vocação e ali Deus me pediu para ficar com eles. Agora tudo acabava, e somente trinta e seis das cento e vinte ficariam comigo. Logo lembrei das palavras de D. José quando lhe falei do chamado: “Pobres sempre os tereis”, como dizendo: “Não tente resolver todos os problemas do mundo”.

 

Assinei o Termo de Responsabilidade sobre Antônio Miranda e o coloquei no carro para levá-lo para a casa da Comunidade. Ele ainda muito emocionado pediu que pegasse seu oratório com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, imagem essa a quem ele pediu para lhe tirar daquele sofrimento.

 

A caminho da Comunidade eu e Zeca falávamos de toda aquela dor, e eu muito preocupado, pois não tinha onde colocar as crianças, uma vez que a casa doada pelas irmãs precisava de reformas e iria demorar para ficar pronta. Zeca, com toda a sua disponibilidade e carinho pelas crianças, abriu então a sua casa. Era a casa onde fazíamos as festas de fim de ano. Estava pronta e toda mobiliada, pois seu sonho de se casar era grande. Ele nos mandou usar tudo, e disse que ficássemos ali o tempo que fosse necessário, que a casa era nossa. Foi um ato sublime, pois sua casa além de apresentar uma linda arquitetura já estava muito bem decorada, com piscina, sauna e tudo o que uma casa de alta classe pode ter. E ele abriu mão de tudo e seu coração falou mais alto. Vi mais uma vez o Cireneu que Deus havia me mandado para comigo levar a nossa Missão com alegria.

 

No dia seguinte, nove de fevereiro, fomos apanhar as crianças. Era uma cena de dor ver como eles se encontravam. Levamos todos para a primeira casa, onde tomaram banho e receberam boa alimentação (alguns apresentavam sinais visíveis de desnutrição). O dia foi longo, com alguns deles muito agitados, pois era tudo estranho pra eles, era um outro mundo.

 

No mesmo dia, à noite, eles vieram para a casa do Zeca que durante o dia, foi adaptada o melhor possível para eles. Treze ficaram na casa de cima e vinte e três ficaram comigo na casa do Zeca. Assim começou nossa segunda casa.

 

No mesmo dia em que a clínica fechou, fui chamado pelo hospital pra dizer que o Maninho iría sofrer uma cirurgia, o que era um risco devido ao seu estado. Porém, era preciso. Naquele momento, imaginei que Deus levaria Maninho...

 

Foi um dia tão intenso que só à noite me ligaram para falar que Maninho já estava no quarto e a cirurgia tinha sido um sucesso. Para minha alegria, em uma semana, estava voltando para casa, agora com mais qualidade de vida. Mais uma vez, recebi muito apoio dos familiares do Zeca, que não mediram esforços para que Maninho tivesse todo o necessário de um pós-operatório. As irmãs do Hospital Santa Teresa, também contribuíram muito dando a ele não só a internação hospitalar como muito carinho durante todo esse tempo.

Eu, Zeca e nossos amigos especiais

Eu, Zeca e nossos amigos especiais

 
Capítulo XI
Novos desafios
Capítulo XI - Parábolas de Corações Especiais
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Os primeiros dias com as crianças

No domingo à noite, pudemos dividir as crianças e acolher um grupo na Rua Mercedes nº 1.000, no Castelo São Manoel em Corrêas, e outro grupo na casa do Zeca.

 

Deus, sempre providente, todas as casas apareceram sempre no Castelo: a primeira na Rua Carvalho Junior nº 278 – casa de fundação e primeira Escolinha, onde tudo começou.

 

A segunda, na Rua Mercedes nº 1.000 – casa comprada pelos benfeitores. A terceira, na Estrada do Ribeirão nº 478 - casa doada pelas irmãs de Santa Catarina.

 

A razão de serem sempre perto nos facilitava a comunicação. Também sempre me pergunto porquê na Paróquia de Corrêas?

 

Em Corrêas:

- fica o Seminário, onde senti o primeiro chamado, ao sacerdócio;

- ficava também a clínica, onde iniciou o chamado à vida com os especiais;

- nasceram as três casas e ali foi fecundado todo o carisma;

- fica a oficina do Zeca, sempre um Cireneu;

- também no Castelo São Manoel fica a casa do Zeca, onde os acolhidos

foram hospedados à espera da reforma da segunda casa;

- Pe. Quinha veio ser pároco;

- aconteceu a Primeira Eucaristia dos acolhidos;

- fica a Capela de São José, no Caetitu, onde fui consagrado.

 

Creio que é fácil entender, pois esta Paróquia é de Nossa Senhora do AMOR DIVINO – e existe amor maior que poder divinizar a pessoa humana, na pessoa frágil de um Jesus Menino Especial e abandonado? Somente Maria nos levaria a crer e viver este Amor incondicional e divino, e nada mais sublime do que em sua casa.

“Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Magnificat).

 

Os primeiros dias foram desafiantes, pois logo tivemos que internar vários deles, principalmente os acamados. Todos estavam com sérios problemas de saúde. Chegamos a nos achar impotentes diante de tanta enfermidade! Porém, recebemos todo apoio do hospital local e muitos deles ficaram por mais de três semanas hospitalizados.

 

A adaptação deles

Apesar de conhecê-los, a passagem de oito para trinta e seis acolhidos exigia uma organização completamente diferente. E em alguns momentos, senti certo abalo em minha confiança; pensava se Deus queria mesmo aquilo, se eu seria capaz de dispensar a de todos eles os cuidados que cada um exigia...

 

A casa da Rua Mercedes ficou com um grupo de treze acolhidos. E eles também lá tiveram muitas dificuldades de adaptação. É bom lembrar que eles haviam vivido todo o tempo em uma instituição, e agora eles estavam em uma casa.

 

Na casa do Zeca, tudo se tornava mais complicado. Casa com piscina, toda de vidros grandes nas portas e tudo novíssimo; banheiro com box blindex, escadas e toda a mobília muito bonita... Além do medo de que eles se machucassem, eu tinha que zelar pelo patrimônio do Zeca. Porém, ele sempre me tranqüilizava dizendo que o maior valor eram as vidas que ali estavam.

 

Uma capela improvisada

Falei com Pe. Quinha que sentia que Jesus Eucarístico deveria ficar lá conosco, pois Ele era o centro de tudo e nos indicaria o que fazer. Eu já estava inquieto sem o Santíssimo na casa, mas onde colocá-lo? Que local seguro a casa oferecia? Mais uma vez Zeca resolveu a questão e abriu o quarto, que ele planejara para ser o quarto do casal. Ali pudemos colocar um oratório – aquele que pertenceu ao Antônio Miranda na clínica. Este oratório guardava Nossa Senhora Aparecida e todos os dias, diante dela, rezávamos o Terço junto do Zeca, que era fiel, em todos

os dias, ir lá rezar com eles. Agora aquele oratório ia guardar Jesus Eucarístico no quarto no qual, no futuro, seria o quarto de Zeca e sua esposa, Fernanda. Dali foi gerada toda a força para levarmos aquele primeiro mês de desafio por aquelas vidas.

 

Era também necessário um local mais seguro para colocar os bercinhos das crianças acamadas; o local escolhido foi o quarto que um dia seria do filho do Zeca. Hoje neste quarto dorme seu filho Felipe José. Ali eles estavam mais seguros. A parte da cozinha e da lavanderia foi toda adaptada e logo no segundo dia vieram vários voluntários que ouviram o apelo do Pe. Quinha na Missa da Paróquia. Houve também uma mobilização de amigos que vieram trazer doações de fraldas, remédios, alimentos e todo apoio.

 

Eu dormia na sala grande com seis acolhidos maiores; os outros ficaram nos quartos, pois eles levantavam à noite e meu medo era de que saíssem e também por causa das portas e da piscina. Para mim tudo era muito precoce. A cada dia que eles voltavam do hospital era uma festa, pois era uma vida ressuscitada. Via Deus nos usando para salvá-los, e isso estimulava a prosseguir. Rezava as orações da noite e entregava tudo a Deus. Ficamos ali por quarenta e cinco dias.

 

A mudança para a nova casa

À nova residência, demos o nome de Comunidade Católica Jesus Menino – Casa de Nazaré. Ficava situada na Estrada do Ribeirão 278 no Castelo São Manoel em Correas. Essa casa foi doada pelas irmãs de Santa Catarina e teve que passar por reformas e adaptações.

 

No início de abril, começamos aos poucos a mobiliar a casa e de fato nos mudar. Era um espaço grande, porém uma casa com muitas escadas e subidas, mas foi ali que Deus nos chamou inicialmente. Para a missa de inauguração recebemos o bispo D. Vaz, que veio celebrar e dar a bênção à nova casa.

Tônio – Primeiro dia na casa nova

 
Capítulo XII
1999 – 2000: Um ano de desafios
Capítulo XII - Parábolas de Corações Especiais
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Nosso encontro com

Fazenda da Esperança e Canção Nova

 

Neste mesmo ano, também nasceu na Paróquia um grupo chamado ‘Oficina de Jesus’. Nasceu do coração do Zeca. Ele havia feito um curso da Nova Evangelização e nesse curso, chamado ‘Discipulado’, sentiu que seu chamado era ajudar aos drogados e dependentes do álcool. Nesse curso, junto com ele, estávamos eu, Pe. Quinha e Antônio Miranda (nosso acolhido). Ele sentiu isso muito forte e após muito discernimento junto comigo e Pe. Quinha pensou em organizar um encontro para levar essas pessoas a também encontrarem a Deus, pois essa realidade ele experimentou bem, antes de sua conversão. Assim, iniciamos com ele a preparação do I Oficina de Jesus. Primeiro ele e Pe. Quinha, depois eu também vim para ajudar na montagem do encontro.

 

Sendo assim, Zeca foi com outros amigos visitar a Fazenda da Esperança em Guaratinguetá, que já trabalhava há vinte anos em comunidade com dependentes químicos. Ele me falou de como era a Fazenda e então marcamos de irmos juntos visitar. Em uma dessas visitas, encontrei Edinho, um jovem de vinte anos dependente há mais de seis. Ele estava em seu sexto mês de recuperação e as irmãs da Fazenda pediram a ele para nos acompanhar. O interessante é que antes de ir, liguei para marcar e falei com outro jovem de nome Gilson, mas ele não estava lá no dia em que fomos e quem nos recepcionou foi o Edinho.

 

Caminhamos pela Fazenda trocando nossas experiências de Vida de Comunidade. Ali nasceu entre nós uma amizade muito forte. Ele me disse que gostaria de fazer uma experiência de vida conosco logo que terminasse sua estada de um ano na Fazenda. Nos meses seguintes, sempre que eu ia a São Paulo passava lá para vê-lo, e com isso foi-se criando um laço com a Fazenda da Esperança. Depois pude ver como Deus cuida de nós e nos faz encontrar sempre as pessoas certas...

 

Conheci a Fazenda ainda no seu início quando participei do Genfest - Jornada da Juventude do Movimento dos Focolares. Lá pude ver o fundador Nelson Giovanelli dá seu testemunho de vida. E como seu depoimento mexeu comigo! Creio que esta semente de entrega nasceu naquele encontro do Genfest. Tudo aquilo me impressionou muito. Agora, quinze anos depois, eu estava dentro da Fazenda e começando ali algo também que eu ainda não sabia.

 

Terminado seu tempo na Fazenda, Edinho veio passar um tempo conosco. Aproveitou e foi contar sua experiência na I Oficina de Jesus, que aconteceu na mesma ocasião. A Oficina também foi desafiante. Via ali que Deus pedia muito ao Zeca. Assim nasceu na Paróquia o grupo de apoio Oficina de Jesus. Foram feitos o segundo e terceiro encontros, e aí Zeca junto com Pe. Quinha, agora com mais experiência, deram um passo importante ao fundar a “Oficina de Jesus Sítio Nossa Senhora do Sorriso”, onde hoje vivem homens se recuperando e encontrando um sentido para suas vidas. Devido ao crescimento da Comunidade, eu só pude

ficar ajudando nas reuniões, que até hoje acontecem na paróquia. Hoje existem dois sítios, com um total de oitenta pessoas sendo atendidas, além das casinhas de apoio.

 

Assim vejo os ideais se encontrando e Deus desenhando seu plano de Amor entre três amigos: Pe. Quinha, como sacerdote, eu como leigo consagrado, e Zeca casado e com sua família. Este é o mistério de cada um viver seu chamado na dimensão da alegria e da fé, vendo cada pessoa humana como é: filha amada de Deus.

 

Edinho nos leva à Canção Nova

Em seu retorno à comunidade, Edinho me falou sobre a Canção Nova e o Dunga, pois ele havia feito um programa “Resgate Já” na Fazenda e também um “PHN” (Por Hoje Não vou mais pecar - Canção Nova). Poderíamos tentar falar com um jovem que tinha um irmão que foi um dos primeiros da Fazenda Esperança e tentar uma aproximação.

 

Assim, voltei com ele a São Paulo e passei em Cachoeira Paulista e lá falamos com Paulinho, que era câmera do programa ‘Resgate Já’. Ele nos recebeu muito bem, ficou interessado na nossa história e logo marcamos o programa na outra semana.

 

Dunga veio gravar o programa, que foi um sucesso! Nasceu ali um carinho especial dele pela Comunidade e ele levou nossa mensagem também à Comunidade Canção Nova, onde muitas portas foram abertas e através dos programas muitas vocações e muitos benfeitores se aproximaram de nós.

 

Pudemos nos encontrar em um dia muito especial com Pe. Jonas Abib, Luzia e Etto.

 

Sei que hoje as imagens da Comunidade geradas pela Canção Nova são canais de muitas curas e libertação. Dunga já esteve conosco em mais quatro shows beneficentes e diversos programas foram gravados. Assim se forma a unidade das diversas expressões da Igreja, todas e cada uma vivendo sua missão e uma completando a outra.

 

Edinho retorna para ser voluntário da Fazenda

Edinho retornou à Fazenda e logo foi convidado para ir para Pernambuco como voluntário, trabalhar na Fazenda de lá. Mesmo assim continuou a levar nossa experiência à Fazenda, e pediu ao Frei Hans se poderíamos levar essa mensagem aos rapazes em recuperação e ao mesmo tempo falei a ele que achava possível que eles pudessem viver o que Edinho viveu. Recebi do Frei Hans e do Nelson o sim. Logo começamos a fazer encontros na Fazenda, e nesses encontros muitos rapazes que estavam terminando o tempo de experiência na Fazenda manifestaram o desejo de vir à Comunidade. Percebo que estamos ajudando a construir também aqueles homens cujas vidas já estavam sem sentido.

 

Nesta busca, veio um total de trinta e dois jovens, dois ou três por mês e passavam conosco de três a quatro meses. Foi um grande laço entre nós e a Fazenda. Muitos desses jovens ainda residem em Petrópolis e aqui continuam suas vidas, outros voltaram às suas cidades e famílias levando a experiência de conviver na Jesus Menino e hoje são pessoas novas, e posso testemunhar como pude aprender com essas vidas a conviver com a dor dos dependentes. Poucas vezes pude ver pessoas com tanto fervor na fé e com tanta vontade de acertar. Durante todo o tempo em que caminharam conosco somente nos deram alegria.

 

Ano 2000: nossa participação no Jubileu da Fazenda

Fomos então convidados a dar nosso testemunho no Jubileu da Fazenda. Era uma festa muito grande, onde estava, presente mais de três mil jovens vindos de todas as Fazendas do Brasil e do exterior. Lembro também que era a ordenação sacerdotal de Pe. César e Pe. Luís, e estavam lá diversos sacerdotes, bispos e emissoras católicas falando daquela grande festa. Então subi junto com os acolhidos – Felipe, Antônio, Maninho, Nivaldo, Fábio e Alex. Contei minha experiência e falei que estava disposto a abrir nossa casa àqueles que sentissem essa vocação no coração. Logo depois Antônio Miranda deu seu testemunho e disse uma frase onde todos se levantaram e aplaudiram em um coro só: Antônio disse “Deus não me deu pernas pra andar, mas me deu meu coração, E MEU CORAÇÃO VOA!”. Sobre aqueles jovens tão sofridos e em busca de algo, Antônio soprou a grande esperança de que em Deus tudo podemos. A partir dali, recebemos muitos convites para ir a outras Fazendas.

 

Ida a Pernambuco

Senti vontade de ir a Pernambuco visitar Edinho, que estava em Garanhuns. Lá estava também Pe. Ricardo Pinto, jovem sacerdote de nossa Diocese e amigo meu do Movimento Semente, agora trabalhando no Seminário de Caruaru. Nesse dia do encontro, estava lá também D. Dino Marchiori, bispo de Caruaru, que também ouviu nossa experiência e me parabenizou pelo testemunho. Lembro da alegria de D. Dino me cumprimentando. Então liguei pro Edinho e para o Pe. Ricardo e comecei a organizar nossa ida.

 

Pe. Ricardo, sempre muito otimista e alegre (como um bom membro do Movimento dos Focolares) me deu todo apoio e falou com D. Dino, que também apoiou nossa ida. Pe. Ricardo fez um pequeno programa para apresentarmos a Comunidade em diversos lugares e falar a alguns sacerdotes e catequistas. Edinho, que morava em Garanhuns, também organizou tudo para nos acolher. Faltava agora a Providência para viajar com os meninos. E graças a Deus tínhamos ganhado a Kombi nova e o dinheiro para a viagem nós ganhamos de um benfeitor. E o retorno a Petrópolis nós ganhamos dos padres dos lugares por onde passamos dando testemunho.

 

Fomos eu, o motorista da Comunidade, José (consagrado) com Fábio, Maninho, Alex, Felipe e Antônio Miranda. Levamos a imagem de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela, padroeira das Missões, nos levaria ao nosso destino.

 

Foram três dias de viagem, uma aventura divina que sabia que faria acontecer algo novo nas nossas vidas.

 

A primeira parada foi na Bahia, em uma pousada, e de lá temos alguns colaboradores até hoje. A segunda parada foi na Fazenda da Esperança em Sergipe, onde encontramos os responsáveis da Fazenda junto dos jovens que nos acolheram com muita alegria. Lá pudemos falar para os jovens.

 

No outro dia, subimos a Alagoas e depois a Garanhuns. Quando chegamos à Fazenda, Edinho nos esperava; foi emocionante o carinho dele e de todos. Foi celebrada uma bonita Missa para nos acolher e fomos descansar. Todos estávamos acabados de cansaço.

No dia seguinte, começamos a jornada de encontros em Caruaru, Arcoverde e Alagoinha que durou uma semana. Nas igrejas, eram muitas as pessoas para ouvir os meninos falarem.

 

Lembro que nos dias que estávamos lá D. Dino sofreu um princípio de enfarto, teve que ser hospitalizado e não foi possível nos encontrarmos. Mas eu sabia que ali estava um amigo e admirador de nossa causa.

 

Retornamos a Petrópolis, mais três dias de viagem, trazendo aquele povo no coração.

 
Capítulo XIII
Primeiro ano na casa nova
Capítulo XIII - Parábolas de Corações Especiais
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Após a inauguração, vivemos um ano dolorido, pois tudo se transformou e os trabalhos aumentaram. O número de funcionários dobrou, e as contas também. Senti-me incomodado, pois comecei a viver muito na administração e longe dos acolhidos. As duas casas viviam como podiam. As coisas começaram a apertar. Aparecem os primeiros sinais de que as coisas não iam muito bem.

 

Os membros se encontravam uma vez por semana para partilhar. A equipe terapêutica em unidade com o diretor espiritual tentava dar o suporte necessário para as coisas caminharem na mesma sintonia.

 

Dezembro de 1998: chegam os novos acolhidos

Sempre tivemos vontade de resgatar e trazer de volta aqueles que se foram quando a clínica fechou. Assim, pudemos trazer Felipe, Thiago e Fábio, que passaram alguns meses em outra instituição e agora estavam de volta. A família começa a ficar maior e dividimos assim: Felipe e Fábio foram acolhidos na primeira casa; Thiago ficou comigo na segunda casa. Assim pude experimentar toda a alegria de Thiago. Era nosso desejo já tê-lo acolhido há muito tempo, porém devido à burocracia sempre presente não foi possível.

 

Thiago chegou no dia de seu aniversário, treze de dezembro – por coincidência no mesmo dia da minha Primeira Comunhão e da padroeira da Capela de Santa Luzia, minha comunidade paroquial. Logo procuramos levá-lo ao médico, pois seu estado emocional estava muito abalado devido à alegria de ter vindo morar conosco. Às vezes eu o via sorrindo sozinho. Ele era ativo e falante, e estava sempre pronto a ajudar as pessoas. Tudo ele se oferecia para fazer.

 

Chega 1999

Dia vinte e seis de janeiro de 1999, iniciamos a reunião dos preparativos para as festividades de dez anos da Comunidade. Muitos voluntários, conselheiros e amigos juntos puderam traçar conosco os caminhos de 1999 para em março de 2000 festejar os dez anos.

 

Naquela noite fui ao Sítio São José do Oriente fazer uma palestra e voltei já bem tarde. Lembro que, antes de sair,recebi Adão, esposo da funcionária Maria Lúcia, que veio trazer um empadão para comemorar a chegada do Thiago. Após a oração, todos brincaram muito de guerra de travesseiros, houve muita alegria.

 

Dia 27 de janeiro: a dor nos visita

Logo cedo estávamos na celebração quando Cristiano veio me chamar e disse: “Vejo que Thiago não está bem, você pode vir aqui?”. Eu disse: “Vou terminar de dar a Comunhão e estou indo”. Ele foi e voltou rapidamente, dizendo: “Tônio, vem correndo, acho que o Thiago desmaiou muito forte, ele não acorda!”.

 

Saí correndo, coloquei o Thiago no carpete e comecei a chamá-lo com insistência, e nada. Pedi para chamar o Zeca, que logo veio e como um raio, fomos para o hospital. Chegando lá, correram e fizeram de tudo, uma excelente equipe deu todo o suporte. Após a primeira hora de tentativas a notícia triste: a médica chama a mim e ao Zeca e diz que ele não suportou e faleceu.

 

Foi uma crise convulsiva que pode ter dado à noite enquanto ele dormia. Meu mundo veio a baixo. Perguntei novamente a Deus o porquê... ele queria tanto uma família, esperou tanto para ficar conosco. E agora só viveu quarenta dias... Foi como o pequeno profeta JOÃO BATISTA: veio me anunciar novamente algo que estava para acontecer. Zeca me falava: “Fique feliz porque você foi o pai que ele queria ter. Você agora tem um santo intercessor no Céu”.

 

No velório, espalhamos pipas com fotos suas por todo o local, pois ele gostava muito de soltar pipa e viver como um pássaro.

 

A vida continua, e em maio outra surpresa: Maria Luzia vai para o hospital e adoece fortemente. Nosso expectativa cresce, pois o quadro de Luzia fica cada dia mais grave. Pensava eu que Maria Luzia já tinha sofrido tanto na sua infância e em todo seu abandono, e que agora estando conosco tinha encontrado seu verdadeiro lar. E devido a um forte resfriado agora estava no CTI e passava por momentos difíceis. Os médicos nos falavam que seu estado era delicado, pois se trata de uma forte infecção devida a seu estado acamado. Ela responde pouco ao tratamento.

 

O retiro

Chega o dia do retiro de membros, que seriam três dias de completo silêncio. Conversamos com nosso diretor espiritual sobre nossa preocupação com Luzia, e ele nos sinaliza que agora deveríamos somente confiar em Deus, pois era a Ele que Luzia pertencia. Então entregamos a casa aos conselheiros e funcionários e fomos para o retiro. Todos os dias, eu ligava e estava tudo bem, todos estavam bem.

 

Lembro da última pregação no sábado à noite, quando Ir. Risomar nos pregava sobre aceitar a vontade de Deus. Última palavra para meditarmos à noite: “No mundo havereis de ter muitas tribulações. Coragem! Eu venci o mundo!”. Dali fomos cada um para o seu quarto. O retiro aconteceu na casa das irmãs de Sion, no Caetitu, próximo à nossa casa.

 

Quando era 00h30, acordo com o telefone tocando e Ir. Martha me chama dizendo: “Tônio, telefone pra você. É da Comunidade, parece que é o Zeca”. Aguardei e ligou novamente, e Zeca com uma voz alegre me dizia: “Meu irmão! Hoje temos uma santinha no Céu”. Então em meu coração, pensei que Luzia tinha morrido, e Zeca continua: “A Janine faleceu agora às 22h30 no hospital”. Falei com Zeca que ele estava enganado, pois quem estava internada era a Luzia, a Janine estava bem em casa. E para minha surpresa era mesmo a Janine que veio a falecer devido a uma forte crise convulsiva. Foi socorrida, mas faleceu quando chegou ao hospital.

 

Assim convoquei os consagrados a irmos todos embora para casa. Cheguei em casa, encontrei todos abalados com o acontecido. Fizemos os procedimentos normais. E terminamos nosso retiro na funerária, velando nossa pequena Janine. Aí caiu em mim que não tinha pensando onde sepultar as crianças, pois para mim, estava ali para dar-lhes a vida, não a morte. Mesmo assim, logo depois falei com Ir. Martha que nos concedeu colocar Janine no túmulo das primeiras irmãs de Sion no Brasil.

 

Passado um mês veio a falecer Maria Luzia. Eu estava em casa, quando o hospital veio nos avisar. Tínhamos um pequeno formulário de endereços, onde pude buscar sua família que não a via há dez anos. Avisei sobre seu estado de saúde quatro dias antes de sua morte, porém eles não conseguiram vê-la com vida. Mas vieram, com a nossa ajuda, participar desses últimos momentos, e aí pudemos conhecer a verdadeira história de Maria Luzia e mais valor demos o tempo que, por nós, foi amada. Luzia também foi sepultada no túmulo das irmãs de Sion junto

com Janine.

 

Muito me perguntei por que neste ano, em plena estruturação da festa de dez anos, Deus vem com essa lição de levar os acolhidos... Entendi também que além de somar os dez anos, eles foram fundar a Jesus Menino celeste. E como tudo acontece em mais de um, Deus nos levou três. Agora entendia o momento que, entre nós, se passava: a graça de Deus, e não a dor.

 

A cruz se apresenta aos fundadores

Se no Céu havia agora intercessores é porque na terra as coisas começavam a se complicar. Iniciam-se os primeiros desentendimentos entre os fundadores. A distância entre as casas começava a criar novos problemas. A economia está cada vez mais apertada e então nasce a vontade de unir os lares e fazer uma só casa.

 

Muitos projetos foram pensados. E pensamos no bonito projeto de várias casinhas em um lugar plano, com campo de futebol, horta. Pensávamos em vender as duas casas e comprar um lugar plano. O restante do ano foi de muita dor, porém ainda sempre procurava achar caminhos para a Comunidade continuar unida.

 

O conselho decide que deveríamos mesmo unir as casas e trazer os meninos para a casa de baixo, colocar a casa de cima à venda e com o dinheiro comprar um local plano. Fizemos uma reunião com todos os benfeitores, padres e fundadores para expor a verdadeira situação pela qual passávamos e qual o caminho havíamos encontrado. Quando tudo parecia estar certo e concluído, um dos fundadores se colocou totalmente contra e aí as dores foram como dores de parto, e tudo isso terminou de forma muito dolorosa, com a saída deste membro.

 

As casas foram unidas no dia oito de fevereiro de 2000. Foi feita a unificação dos lares e começou a ser estruturada a forma de vida. Agora eu estava com toda a Comunidade sob meus cuidados e via que as coisas estariam mais complicadas, porém Deus se fazia muito presente.

Julho 1990, Primeira casa de fundação

 
Capítulo XIV
Ainda no ano 2000...
Capítulo XIV - Parábolas de Corações Especiais
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Celebramos com alegria a unificação dos lares. Apesar de tantas dores vividas nestes meses e do final de 1999, que foi muito estressante e dolorido, em conjunto com a equipe terapêutica e os conselheiros nos organizamos para preparar uma bonita festa de dez anos de Jesus Menino.

 

Dia dezesseis de março, nossa casa ficou cheia de amigos, fundadores e exconselheiros e todo o povo em geral celebrava conosco aquele momento. Era preciso fazer uma leitura dos fatos para agora pode percorrer um novo caminho. As celebrações de dez anos marcaram esse início de vida nova, mais amadurecida e consciente do nosso papel como Comunidade, para agora vivenciar o carisma e dar sentido novo a toda a nossa Missão.

 

Recebemos o apoio geral de nosso bispo e todos apoiavam a Comunidade e me indicavam agora não olhar os erros e sim para o essencial: a obra que Deus um dia me pediu.

 

O projeto de uma nova casa

O que me fortalecia era que tínhamos uma meta a ser alcançada, e a equipe terapêutica como instrumentos de Deus desenhou um projeto muito bom e nos apresentaram. Deus sem dúvida estava nos levando a uma nova Comunidade, a uma nova mentalidade, e tudo agora se tornava novo. Unidas as casas, o carisma retornou mais forte aos nossos corações.

 

Nossa visita à Roma para pedir a bênção a João Paulo II

Aproveitando o Ano Jubilar e os nossos dez anos de fundação, escrevemos à Cúria Romana pedindo uma audiência ou um encontro com o Papa para receber a bênção pelos dez anos. Graças a Deus, nosso pedido foi ouvido e eles conseguiram duas datas para irmos ao encontro do Santo Padre. Assim, tínhamos tudo para ir, só faltava o dinheiro das passagens, pois enviamos o pedido a duas companhias aéreas que até deram alguma esperança, mas depois não foi possível. Faltavam dez dias para a viagem e pensamos em cancelar.

 

Deus providente sempre!

Neste dia, era uma segunda-feira, veio nos visitar Nelson Giovanelli e alguns jovens da Fazenda da Esperança de Teresópolis, e Nelson me perguntou sobre a viagem, como estava tudo. Então lhe falei da problemática sobre as passagens. Ele me disse: “Não, você não vai desistir, vou ver o que consigo fazer...”. Ele ligou para as fazendas e falou com os jovens, e houve uma mobilização de Amor. No outro dia estava na nossa conta o dinheiro das passagens. Ali vi o Amor-Unidade acontecer mais e uma vez a resposta de todo o trabalho unido à Fazenda. Também conseguimos um jovem de nome Francesco e sua esposa Lucy, que nos acolheram em Roma.

 

Na segunda quinzena de setembro, viajamos. E no dia seguinte ao da nossa chegada, ansiosos, nos organizamos e fomos cedo à Praça de São Pedro, nos dirigindo para o lugar dos convidados. Alex levou uma caneca de madeira feita pelos acolhidos de presente para o Papa. Antônio Miranda com seu Terço agradecia a Deus por aquele momento. Após a audiência, onde foi falado sobre nossa presença ali, veio João Paulo II para cumprimentar mais ou menos uns oitenta jovens Especiais, e Antônio e Alex foram os primeiros. Jorceley, meu amigo

de Comunidade que me ajudou a fazer esta viageme eu não nos contínhamos de tanta emoção. Depois a Canção Nova de Roma fez uma linda matéria sobre a comunidade que foi mostrada aqui no Brasil.

 

Dias depois, viajamos de trem ao Sul da Itália, para nos encontrarmos com Pe. Rino e Mons. Jorge. Pe. Rino nos trouxe de volta a Roma e no retorno de Padova a Roma, passamos por Assis.

Tudo aconteceu na Providência.

 

A intervenção do Céu

Nosso acolhido Alex estava muito preocupado com a viagem e ele sabia que nós não íamos ganhar as passagens. Aí o Joras, que era nosso secretário, nos contou que ele estava fazendo Adoração (como fazemos todas as quintas-feiras), e ao sair da Capela encontrou Alex, que lhe perguntou: “Joras, e as passagens?”. Joras conta: “Eu disse a ele que não havia ganhado e disse ao Alex: ‘reze aí e peça a Jesus que Ele te ouça’ – eu falei, mas eu mesmo não acreditava... Alex fez o que eu disse, e logo em seguida chegou o Nelson (da Fazenda da Esperança) e aí tudo

aconteceu. Alex foi receber a bênção... e eu fiquei aqui! Agora, confio mais.”

 

Nosso encontro com Pe. Eugênio e os seminaristas lazaristas

Também neste período novo para a Comunidade, iniciou-se um contato maior com os jovens estudantes do Seminário Interprovincial de São Vicente de Paulo. E junto com os jovens veio Pe. Eugênio, que durante todo o tempo em que esteve em Petrópolis e trabalhou neste seminário veio dar seu carinho e dedicação a nós e aos nossos acolhidos.

 

Houve durante todo esse tempo um contato e troca de experiências que muito somou com tudo isso, e mais uma vez Deus nos fazendo um e nos disse, através destes contatos, como a Comunidade pode ser grande colaboradora na construção dessa nova Igreja que se faz em torno dos mais fracos. Até hoje os seminaristas frequentam nossa casa aos sábados, prestando essa presença amiga e solidária e hoje celebra conosco toda semana Pe. Getúlio, que veio substituir Pe. Eugênio.

 

A Igreja presente nos reconhece

Foi-nos concedido nesse ano de 2000, também o título de Associação Privada de Fiéis. Esse título nos ajudou muito e ajuda, além de expressar o respeito que pudemos ver de todo o corpo clerical da Diocese.

 

Sei que isso foi conquistado com muita dor, mas ao chegar, vimos como o Senhor Deus nos cumula de graças se formos fiéis ao Seu chamado. Daí então iniciamos o nosso nome de COMUNIDADE CATÓLICA JESUS MENINO.

 

A presença dos acolhidos em um momento muito frágil da minha família

E quatorze de fevereiro de 2001 eu e toda minha família fomos atingidos brutalmente pelo assassinato de meu irmão Gerson, pai de família, trinta e seis anos, um jovem cheio de vida.

 

Gerson foi assassinado de forma muito agressiva e perto de meu pai e de muitos amigos. Eu estava na Comunidade e era a hora do almoço dos acolhidos quando minha irmã chegou e em desespero me pediu para que fosse com ela para casa, para dar força à minha mãe, meu pai e toda a família.

 

Era a última coisa que eu poderia imaginar naquele dia: receber essa tão sofrida notícia. Para nós seríamos eternos, e ouvir que meu irmão morreu foi e é muito forte, ainda mais assassinado, dói muito!

 

Lembro que os acolhidos me olhavam como se todos estivessem sofrendo comigo. Arrumei minhas coisas correndo para viver aquele momento difícil.

 

À noite ali no velório estavam os acolhidos do meu lado, somente calados e sendo presença de filho... família.

 

No momento do sepultamento, a dor ficou mais forte e parecia que faltavam forças a nós. Tudo é muito estranho, e quando tudo estava para se encerrar, o caixão de meu irmão desceu à sepultura sob o olhar de centenas de pessoas, e do silêncio vem aquela voz: “Com Minha Mãe estarei, na Santa Glória um dia, junto à Virgem Maria no Céu triunfarei”. Era Felipe... ali estava meu povo... também sofrendo, também dando esperança, também me ensinando a ler aquele momento. E sei que naquele momento muitos dos parentes puderam entender o meu chamado: a dor da morte transformada em Vida...

Nova Casa São Francisco - Julho 2002

 
Capítulo XV
2001: Floresce um novo tempo
Capítulo XV - Parábolas de Corações Especiais
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A chegada de Geampiero (o italiano)

Como mencionei, nossa viagem a Pernambuco tinha um sentido, e isso não demorou a se confirmar.

 

A Comunidade recebia vários jovens vindos da Fazenda da Esperança, entre eles, veio até nós Geampiero Priotti, um jovem italiano. Ele veio ao Brasil visitar a Fazenda de Pernambuco e estava com D. Dino. Geam é amigo de Franco Rosso, que é da família de D. Dino, e Franco já havia lhe falado sobre a Comunidade, pois D. Dino também já havia comentado com Franco.

 

Então Geampiero veio à Nova Iguaçu visitar a Casa do Menor e depois veio ficar conosco. Viria por três dias e ficou seis meses.

 

Os alemães

Também passaram pela Comunidade nesta época por intermédio da Fazenda três jovens da Alemanha: Timo Joseph Luthamm, Byorn Frieis e Karls Raffi, e para nós foram experiências ricas pois estes jovens eram da Igreja Luterana na Alemanha. Pela primeira vez pudemos viver esse Ecumenismo dentro da Comunidade. Assim também conseguimos junto deles aprender a amar a outras convicções religiosas.

 

Acontecia sempre um momento sublime quando na hora da oração do Terço e da Adoração ao Santíssimo Sacramento eles estavam ali participando com suas presenças. Tive a alegria de estar com eles em minha viagem à Itália e Alemanha e visitar as casas deles e também ir ao culto luterano e falar para esse povo.

 

Esses são os caminhos de Deus, onde ele faz todo impossível se tornar possível. E para nossa alegria, na inauguração de nossa casa estava presente um grupo de quinze alemães junto com o Pe. Christian e mais um grupo de italianos. Vimos tudo o que Deus faz com vários povos, formando um povo só.

 

O contato com a Itália

Como dizia antes, Geampiero ficou conosco por seis meses. Nesse período, deixou-se envolver pela Comunidade, desenvolvendo pequenos projetos de ajuda que eram relatados a seus parentes e amigos na Itália, e assim ele conseguiu sensibilizar a muitos para nos ajudar com diversas Providências. E nessas buscas de ajuda, um e-mail foi lido durante uma Missa na Paróquia de São Lourenço.

 

D. Mario Ruatta falava do apelo de Geampiero e uma família que estava na Missa então pediu explicações sobre onde era a casa e o que faziam. Dario, primo de Geam, explicou que seu primo havia feito uma viagem ao Brasil e que havia conhecido a Comunidade e buscava ajuda para projetos. A família, sensibilizada, fez uma doação para auxiliar na reforma da Casa de Santa Clara, que necessitava ser melhor adaptada às necessidades dos acolhidos acamados. Essa família pediu que rezássemos por seu filho Andrea, de quinze anos, que jazia em um leito

sofrendo de câncer no cérebro e morria a cada dia.

 

Então nossa casa uniu-se àquela família numa corrente de solidariedade e oração a Andrea. A pedido de Felipe, Alex e Antônio, escrevíamos e-mails para que os pais lessem a Andrea e tudo isso fazia muito bem a ele, que parecia ganhar mais vida e ter suas dores diminuídas. Era Deus em nosso meio fazendo algo acontecer entre nós.

Andrea

O convite

Geampiero então me convida a visitar a Itália e levar alguns projetos de ajuda. Gean também participava do projeto para tentar conseguir uma nova casa, pois onde habitávamos era uma casa muito bonita, porém nem um pouco adequada aos nossos acolhidos. Era necessária uma casa plana e grande onde nossos acolhidos pudessem ter mais condições de vida. Nasce o desejo de levar esse projeto à Itália para divulgá-lo. Começamos a visitar diversos sítios, casas, e nada era adequado à nossa Comunidade. Em agosto, Geam retorna à Itália para organizar nossa viagem. Os preparativos dos projetos vão tomando corpo e a casa tão sonhada

não aparece.

 

Nada é coincidência, tudo é Providência

Os dias vão passando e a data marcada para a viagem vai se aproximando. Neste período morre o jovem Andrea. Geam se comunica conosco e relata a dor da família. Faltam poucos dias para a viagem, e então a Comunidade Pão da Vida, nossa irmã, nos convida para participar do Cerco de Jericó. Nosso horário é às 23 horas, mas acontece um imprevisto na hora de sairmos de casa e não é possível irmos à Adoração, então remarcamos nosso horário para as 11 da manhã do dia seguinte. Estando a caminho da Comunidade Pão da Vida, passamos em frente a um sítio com a placa “VENDE-SE”. Era lindo! Rezei a Deus para que aquele lugar pudesse ser nosso presépio.

 

Seguimos para a Pão da Vida. E lá, aos pés de Jesus, pedi para que aquele lugar que Ele me mostrou – e sei que foi Deus quem me levou até lá – se fosse da Sua vontade, pudesse ser nosso.

 

Ao retornar para nossa casa em Corrêas, tive a oportunidade de entrar no sítio e deixei lá diversas medalhas milagrosas, e perguntei o preço ao caseiro. Era um valor muito alto, mas mesmo assim senti Deus confirmar que ali seria nossa casa. Assim que pude, liguei para os proprietários e pedi se poderia fotografá-la, pois queríamos mostrar este projeto na Itália e nossa viagem estava programada para a semana seguinte. Eles concordaram e fizemos um lindo projeto.

 

Então entendi a vontade de Deus, pois se tivéssemos ido à noite à Adoração, como combinado, não teríamos visto a placa. Tudo foi providenciado por Deus.

 

Duas famílias, um só coração

No dia vinte e oito de setembro, viajei à Itália e me encontrei com diversas pessoas, inclusive com Franco e Franca, pais de Andrea. Foi um encontro emocionante e muito forte. Apresentei a eles nossa casa, nossos filhos e a tão sonhada casa. Vimos naquele momento uma verdadeira família e seus corações se abrindo para os planos de Deus. Ao nos despedirmos, eles me disseram que nos veríamos no próximo ano no Brasil, possivelmente na nova casa.

 

Depois de quinze dias na Itália, viajamos para a Alemanha a convite do amigo Byorn e da família de Timo - os jovens alemães vindos da Fazenda da Esperança que moraram um tempo conosco – e aproveitamos para divulgar a Comunidade e conseguir ajuda também na Alemanha.

 

Do Brasil, nossos membros me ligaram pedindo para voltar pois o jovem acolhido Natalício não passava bem, estava internado com pneumonia aguda. Fiquei seis dias na Alemanha e voltei rápido ao Brasil. Chegando, estive com Natalício. A Comunidade ao mesmo tempo em que festejava nossa viagem e a expectativa da possível doação da casa, caminhava insegura e preocupada com o estado de saúde de Natalício. Dia quinze de novembro, Natalício teve alta e então fomos buscá-lo. Na saída do hospital, teve uma parada cardíaca e veio a falecer.

 

Ligamos para Franco e Franca, na Itália, para comunicar a partida de Natalício e, muito emocionados, eles nos disseram ser como um milagre no Céu o encontro de Natalício e Andrea, pois naquele dia haviam depositado o dinheiro para a compra da nova casa.

 

Nasce a Comunitá Jesus Menino Itália

Neste mesmo período, eles fundaram na Itália a Comunitá Jesus Menino Itália, uma organização de apoio à nossa casa, idéia nascida do coração dos pais de Andrea, que então encontram um novo motivo para viver. O que acontecia era o cumprimento da última vontade de Andrea: que seus pais doassem tudo o que para ele foi guardado à Comunidade. E assim eles o fizeram, através dessa doação aos nossos acolhidos.

 

Em janeiro de 2002, iniciam-se as reformas e em cinco de julho de 2002, a Comunidade se mudou para sua nova casa. Em dez de agosto, Franco e Franca vem ao Brasil e inauguram a nova casa com uma linda celebração.

 

Hoje a foto de Andrea está em nossa capela, junto às fotos de nossos acolhidos já falecidos. Até hoje seus pais e diversos amigos lutam para nos ajudar a pagar o plano de saúde de nossos acolhidos. Eles acreditam no valor da pessoa, seja ela como for.

 

E foi assim que vimos o Amor atravessar o mar e lá fez nascer uma nova primavera, evangelizar e gerar novas vidas.

 

A venda da casa da Comunidade

Como a Comunidade havia recebido como doação a casa onde morávamos, falamos com Pe. Renato e Pe. Paulinho sobre o desejo de vendê-la para a Paróquia.

 

Após algumas visitas à casa foi concluída a venda para a Paróquia de Corrêas. Hoje esta casa é o Centro de Formação da Paróquia e muitos jovens e adultos ali são alimentados pela Palavra de Deus e pelo testemunho.

E vejo que a Comunidade permanece ali através do espaço onde esses filhos de Deus foram por muito tempo amados e respeitados.

Voluntários Italianos

Fotos na Capela

de Andreas e dos filhos falecidos

Dom Vaz abençoando nossa capelinha

 
Capítulo XVI
Uma vida muito intensa
Capítulo XVI - Parábolas de Corações Especiais
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Iniciam-se as reformas da nova casa

Começamos então a busca da reforma e adaptação da nova casa e junto com a equipe terapêutica tudo foi muito bem planejado para de fato seguir o tão sonhado projeto.

 

A casa do Carangola

Aos poucos, fui percebendo onde Deus me levou. Vi que tantas vezes eu tinha estado no Carangola quando jovem do Movimento Semente e por ali passei diversas vezes, e agora Deus me levava ali. Todo o espaço parecia um sonho, era tudo o que tinha no projeto.

 

Em primeiro lugar, era todo plano, e os espaços já todos definidos, um belo campo de futebol, uma horta e um jardim muito bem planejado. Três casas habitadas e uma lavanderia, tudo pronto, garagem e a tranquilidade. Deus de fato nos levou para um paraíso. Eram as promessas do Pai se cumprindo. Claro que necessitando de reformas e de uma boa limpeza, pois se encontrava à venda há um bom tempo.

 

Pensamos logo onde fazer a Capela. Era o primeiro desejo da alma: ter Jesus Eucarístico entre nós.

 

Assim, com uma boa equipe sendo monitorada pela equipe terapêutica e pelo conselho de administração, demos início às reformas.

 

Detalhes sobre a partida de Natalício

A vida de Natalício sempre foi um milagre, pois ele fez parte do grupo que veio morar conosco no fechamento da clínica. Seus dias foram um desafio para nós, pois seu passado era uma dor só. Viveu acamado todo o tempo de sua vida, e tinha os modos de caminhar e balbuciar palavras como um cachorrinho; andava com as mãos no chão, “de quatro”.

 

Muito foi feito para trazê-lo à realidade, e creio que muito sucesso foi alcançado. Porém, uma vez pude ver seu sorriso e como ele fazia tentava contato com a gente.

 

Também descobrimos seus familiares, que nunca puderam ficar com ele e seu irmão Rafael, que até hoje vive entre nós.

 

Natalício veio a ser internado devido a um forte resfriado, transformado em pneumonia que então o levou a óbito. Tive com ele a certeza de que tudo é possível quando se ama e quando é possível acreditar que naquele ser aparentemente fora de sua realidade você consegue dar e receber. O essencial é o Amor.

 

Naquele dezenove de outubro, eu receberia o prêmio Personalidade Petropolitana. Estava eu acompanhando Felipe ao barbeiro quando Pe. Renato chegou com a notícia da morte de Natalício. Fui o mais rápido possível ao hospital. Ele, que já havia crescido tanto e fazia uma excelente caminhada, agora ia para o Céu com toda a dignidade.

 

À noite ao mesmo tempo em que velávamos o corpo de Natalício, acontecia a entrega do prêmio Personalidade Petropolitana... E lá estava eu, diante daquele mistério divino, pensando

que o meu melhor presente e o maior reconhecimento era ter o privilégio de dar vida e dignidade àquele filho de Deus.

Natalício

Novos diretores espirituais

Terminado o tempo de Pe. Antônio Carlos, pedimos ao bispo a nomeação de outro padre. Neste período, veio nos visitar Pe. Carlos, que estava vindo fazer uma experiência em Petrópolis, e senti que ele poderia nos dar muito com sua simplicidade e carinho. Ele ficou conosco durante um ano e depois foi transferido para Teresópolis, e assim foi nomeado como novo diretor espiritual Pe. Renato.

 

Quando ele era seminarista, sempre que possível, íamos aos encontros da Pastoral Vocacional a que o então jovem Renato nos convidava. Assim que ele foi ordenado logo veio nos visitar como Pároco e ficamos muito próximos dele. Sua afinidade e carinho com os acolhidos demonstravam para mim que ele poderia ser nosso novo diretor espiritual, e logo que soube que Pe. Carlos não poderia mais nos acompanhar, o convidei. Ele aceitou, e quanto bem fez à nossa obra. Ajudoume a organizar todo o trabalho vocacional, deu um novo rosto à estrutura religiosa da Comunidade. E assim pude ver a mão da Igreja sempre caminhando conosco.

 

Logo que chegamos ao final de 2003, Pe. Renato, devido a seu trabalho na paróquia, nos comunicou que gostaria de ser substituído. Assim, indicamos Pe. Márcio Damasceno, pároco de Sant’ana de Inconfidência, para assumir o cargo de diretor espiritual, e em julho de 2003 ele tomou posse.

 

Ele trouxe à Comunidade a simplicidade de um afetuoso amigo, sua tranquilidade era um ponto importante e muito falava ao nosso coração. A distância da paróquia dele até nossa casa era prova de uma enorme doação para estar conosco e vir nos assistir espiritualmente. Ele foi o responsável pelo acompanhamento e formação de Marcos e Geneci.

Paulinho

Rodriguinho como Jesus Menino, com Verinha e Alex

 
Capítulo XVII
2002
Capítulo XVII - Parábolas de Corações Especiais
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Nossos pequenos Paulinho e Rodriguinho vão para Deus

 A reforma da casa no Carangola está a todo vapor, para acolher melhor nossos meninos. A cada passo da reforma, lembrávamos os dois pequeninos da casa: Rodriguinho e Paulinho. Mas eles nos deixaram como pássaros que voam para o Céu. Era Deus nos falando novamente de seu imenso Amor pela nossa causa.

 

A mudança para a casa nova

Foram quatro semanas de preparação para nos transferirmos para a nova casa. De fato é uma grande família, e para que conseguíssemos fazer toda a mudança, gastamos uma semana de muito trabalho.

 

Fizemos a Missa de despedida do bairro e nos preparamos para mudar, e no dia três de julho de 2002, mudamos. Foram necessários seis caminhões baú para trazer tudo, e muitos voluntários nos ajudando.

 

A chegada na casa nova foi para nós motivo de muita alegria, e para os meninos de muita agitação, pois tudo era novo para eles e o local mais silencioso, eles ficaram um pouco inseguros. Porém para nós consagrados muita luta e trabalho, mas tudo recompensava aquela conquista que o Céu nos deu.

 

Por último viemos eu, Alex e Gustavo. Ao chegar procuramos logo acomodar o Sacrário em nossa Capela. Jesus já tinha seu lugar... Junto vieram as imagens de São José e Nossa Senhora das Graças e aí sim a família estava completa.

 

Preparação para a inauguração da casa

Muito foi feito para dar um bonito dia de inauguração da casa nova. Lembro do lindo dia dez de Agosto. Alí se encontravam diversos amigos e fundadores. Vieram também amigos de Campinas, Florianópolis, Palmas, Guaratinguetá, São Paulo, Niterói, Araruama, Teresópolis, Juiz de Fora, Alemanha e Itália.

 

D. Vaz, Pe Quinha e Pe Renato celebraram a Santa Missa. Os acolhidos, como anjos, acolheram a todos no portão de entrada e naquele campo florido Deus assinava sua promessa de amor por seus filhos prediletos.

 

Sei que Andreas, Natalício, Rodriguinho, Paulinho, Thiago, Luiza e Janine no céu, celebravam conosco. Era a resposta do “vinde e vede”, “creia e verás”.

 

Em Deus tudo é possível e assim pude dar de presente nomes as casas da Comunidade.

• Casa Andrea Picotto – Casa de acolhimento consagrada com compromissos definidos com a comunidade.

• Casa de Santa Clara – Residência de consagradas e filhos(as) acamados(as), esta casa nós chamamos de “laborátorios de amor”.

• Casa de São Francisco – Casa Central onde residem os Consagrados e os primeiros acolhidos.

• Capela Nossa Senhora das Graças – Fica junto a Casa de São Francisco, centro de nossa vida. Seus raios divinos divinizam toda Comunidade.

• Casa São Judas Tadeu – Casa para acolher os Hospedes e fazer Formação dos Membros da Comunidade.

• Casa São Vicente de Paulo – Casa de acolhimento de vocacionados em experiência.

• Casa Dom José Fernandes Veloso – Usada para Fisioterapia.

• Casa Dom Gilson Andrade – Atendimentos de Psicologia e Reunião dos Membros e Voluntários.

• Casa Martha Robin – Esta casa acolhe toda a administração, secretaria e recepção de quem vem estar conosco.

 

O florescer das vocações

Pe. Renato, como disse, trouxe esse perfil vocacional à nossa casa, e logo neste período recebemos Lília e Mônica. Com bons encontros vocacionais pude ver como a seriedade dos membros trazia pessoas que queriam viver o ideal.

 

Lília e Mônica fizeram seus primeiros compromissos em vinte e oito de junho de 2003, e aí a Comunidade inicia sua vertente feminina, agora é possível viver esta dimensão em Nazaré. (mãe, pai e filhos).

 

Em sete de setembro do mesmo ano, Deus nos deu Nilma. Agora Deus vai fazendo seu lado maternal acontecer. Nilma, que veio de uma realidade de coordenação do vicariato oeste do Rio de Janeiro, e após ouvir sobre nós através de um voluntário, também vem trazer essa alegria na oração e essa fidelidade no louvor. Vejo assim Deus desenhando Seu plano de Amor.

 

Deus também nos deu Geneci, Marcos e Luciano. Vi que os encontros vocacionais ganhavam mais vida e as pessoas vinham com mais disposição para vivenciar o carisma.

 

Em dezesseis de março de 2004, nossa casa recebe os compromissos desses membros vindos de várias cidades do Brasil.

 

Marcos e Geneci estão hoje conosco abraçam a Missão como consagrados inteiros e despojados. Geneci é natural de Pelotas, Rio Grande do Sul e Marcos de Delfim Moreira, Minas Gerais.

 

Luciano após oito meses discerniu que deveria buscar outro sentido para seu chamado, e nos deixou para viver em outra ordem religiosa, mas está sempre em contato conosco.

 

Lília também retornou à sua família após dois anos devido a seu problema ocular. Em discernimento conosco vive hoje sua vocação consagrada em casa.

Carlos

Tônio e Carlos

 
Capítulo XVIII
2004: Os sinais se tornam visíveis
Capítulo XVIII - Parábolas de Corações Especiais
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Carlos vai para o Céu

No final de 2003, a Comunidade começou uma trajetória de dor junto com Carlos, que já vinha há um tempo nos dando alguns sustos com suas crises convulsivas. Foram quatro meses de internação, e ele veio a falecer no dia seis de fevereiro de 2004.

 

Carlos foi um grande sonho de jovem que adorava viver. Sofreu aceitando tudo. Somente os puros e resignados podem viver o que Carlos viveu. Dele guardo seu constante convite: “Vamos cantar pra Maria!” ou “Tão sublime Sacramento!”. Ele nos deixou um grande testemunho de que o Amor ao Divino nos diviniza e nos torna outro Cristo. E ele, como todo bom mariano, subiu para o Céu no horário do Angelus – ao meio-dia – em seis de fevereiro – dia da morte de Marthe Robin, a quem nós o consagramos ainda no seu leito de dor.

 

Uma festa para Petrópolis conhecer o Amor

Nosso amigo, Dunga veio fazer um grande show beneficente para Petrópolis e toda sua juventude. Através do show, ele levou todos a descobrir um pouco mais sobre a vida e o carisma da Comunidade. Era a resposta do Amor, a busca de revelar em casa o caminho que a obra hoje faz no Brasil e no mundo. Uma multidão de seis mil jovens rezaram e cantaram sobre a alegria e a vida de nossos acolhidos.

 

Eu contemplava a explosão de vida que eles geravam naquele momento. Há tanto tempo excluídos e sem dignidade, sem personalidade, e agora aclamados e reconhecidos por uma cidade que vê neles hoje a figura do novo, uma das maneiras para se viver o Evangelho. Era possível ver ali todo o sofrimento de Carlos agora sendo recompensado naquela festa. É sempre a pedagogia de Deus que se apresenta a nós como pode e se revela nos gestos mais simples.

 

Deus vem agora na minha pessoa

Em meio a tantos afazeres, comecei a sentir dores muito fortes nas pernas. É necessária uma cirurgia vascular. Após vários exames a urgência da cirurgia é constatada.

 

Agora, novamente, a Providência vai agir. Os membros ligam para a Comunidade Senhor da Vida, em Jacareí, e pedem ajuda. De lá, eles prontamente acolhem e pedem que eu vá para São Paulo onde me apresentarão um médico do hospital deles que poderá me atenderá. Assim, no dia seguinte eu parto para Jacareí.

 

Logo que cheguei, Iamara e Nair me falam da capacidade de Dr. Plínio. Solange, outra consagrada, já havia feito todos os contatos, bastava eu ir.

 

Nesta viagem pude logo contar com Gustavo, que muito solícito dizia: “No que depender de mim, vou caminhar contigo”. Ele que veio para a Comunidade como voluntário no ano 2000, e logo que chegou encontrou seu chamado. Ele sempre muito presente entre nós e até hoje é possível contar com seu coração sempre aberto às necessidades da Comunidade.

 

Através de seu testemunho, toda sua família se aproximou da Comunidade e hoje são pessoas com quem podemos sempre contar. Gustavo hoje junto com sua noiva Viviane faz caminho de Aliança na Comunidade. Ele é alguém que Deus me deu como presente para sem-pre.

 

Ele me acompanhou todo o tempo. Assim, em dois de maio de 2004, estava eu sendo operado por Dr. Plínio, no Hospital São Francisco. E vejo a mão poderosa de Deus, eu que, há quinze anos, estive naquele hospital, junto com todo nosso povo para conhecer a Comunidade e me fortalecer no chamado, agora estava ali recebendo mais vida para continuar minha Missão.

 

Era uma cirurgia séria e dependia de muitos cuidados antes, durante e depois. Fiquei no hospital dezenove dias internado e pude ser cuidado de perto por Alex, nosso acolhido, e pelas irmãs da Comunidade de Ja-careí.

 

Alex era mesmo um excelente guardião. Eu que pude cuidar dele quando pequeno ainda, e ensiná-lo tantas coisas, recebia dele agora todos os cuidados e muito carinho. Ele me surpreendeu com tanto zelo. Ali me senti mesmo um verdadeiro PAI cuidado por seu filho. Somente vivenciando o que vivi, pude ver esse cêntuplo que Deus faz quando nos damos a Ele.

 

O tempo que estive em Jacareí pude também escrever toda a espiritualidade da Comunidade, no que diz respeito a nossa vida de oração. Foi sem dúvida um momento de deserto. Hoje vejo que Deus usou dessa enfermidade para me trazer ao seio do carisma da Comunidade e para me refazer como consagrado e como cristão.

 

Assim passei o ano todo de 2004, indo a Jacareí e fazendo as revisões sob o acompanhamento do Dr. Plínio. Nesse período todo, pude ter o Gustavo sempre junto, dirigindo nossa Kombi ou ficando aqui junto de casa. Sou muito grato a todos e também a Verônica, irmã de nossa consagrada Mônica, que também me acolheu em sua casa e comigo ficou esses dezenove dias no hospital, sendo uma verdadeira irmã. Vejo que de fato é necessário deixar tudo para ganhar tudo. Hoje tenho muitos filhos, e também muitas mães, muitos pais, muitos irmãos na fé.

Essa é a maneira que Deus usou para me reeducar.

 

Daniel nos dá sinal de que está partindo

Apesar de todos os sinais, e como é comum aos pais, nunca me deixei pensar em viver sem meu pequeno Daniel.

 

Desde 2000, ele vinha apresentando a saúde muito debilitada. Neste período fez várias internações no HTO (Hospital de Traumatologia e Ortopedia - Rio de Janeiro, RJ) , e muitas delas foram muito positivas, porém seu estado era dos mais frágeis. Ele viveu conosco dezesseis anos, chegou no dia do meu aniversário e por isso sempre o considerei um presente de Deus para mim.

 

Sua história era de dor profunda e de abandono desde a gestação. Creio que não conhecerei história de vida mais triste do que a de Daniel.

 

Nossa sintonia de pai e filho era perfeita, nos conhecíamos pelo olhar. Ao longo do tempo, pude perceber: o que o mantinha vivo era sem dúvida O AMOR. Sua fragilidade fazia dele um “ícone” da Comunidade. Seu silêncio, às vezes, era interrompido pelo choro e gemidos causados pelas fortes dores em sua coluna toda fora do lugar. Era uma mesa de ofertório seu viver...

 

Dia vinte e sete de outubro ele passou mal à noite e logo cedo Mônica, Nilma e eu o levamos rápido para o hospital. Assim que chegamos os médicos disseram que ele não estava nada bem e seu estado era muito delicado. Já não era como as outras internações, crises, vômitos... agora parecia ser mais sério. Como o quadro que ele apresentava era muito sério, os médicos disseram que deveriam deixá-lo no CTI, porém ele ficaria muito só; então sugeriram que deveríamos ficar com ele no quarto, pois ele tinha poucas horas de vida.

Logo que o levamos para o quarto, brotou no meu coração esta carta:

 

“Daniel, com você sei que o Céu é logo ali...

Lembro com alegria do primeiro contato nosso, foi ainda na instituição onde você viveu até os seus onze anos de idade, isso no ano de 1985. Parecia que nos conhecía-mos. Quando tive contato com sua história, seu abandono, sua luta pela vida, percebi que não poderia mais deixá-lo.

Era grande a minha alegria ao ensinar-lhe os primeiros sinais na sala de estimulação. Comer, jogar beijos, sorrir, cada dia que eu ia embora da instituição tinha a vontade de levá-lo comigo, era difícil me separar, você já vivia no meu coração e, tenho certeza de que eu no seu. Você me procurava com o olhar e quando me via, sorria, me dando a certeza de que ali suas dores era suavizadas. Quando o sonho da Comunidade nasceu, Deus colocou no meu coração ficar com você e com os outros irmãos seus. E quando fui embora da instituição onde você morava para iniciar a Comunidade e dar caminho para um chamado todo especial de viver unicamente com você e seus irmãos, foi grande a minha dor por não poder levar você naquele instante, mas todos os finais de semana você vinha me visitar e passar dois dias comigo. Lembro-me como era difícil ficar sem você, mas era só alegria nosso reencontro.

Quantos esforços foram feitos por diversos amigos para encontrar sua família, graças a Deus conseguimos achar seu tio, que nos levou à sua mãe que há treze anos não o via. E a Providência Divina cuidou de tudo. Sua mãe retirou você da instituição e levou você para a Comunidade. Foi no dia do meu aniversário: doze de junho de 1993. Lembro-me do casal Regina e Wilzo entrando com você no colo e dizendo: “toma teu presente, ele agora é teu”. Não me cabia de alegria e emoção, chorei pois agora eu e você íamos viver juntos. E assim você caminhou comigo e com nossa Comunidade mesmo sem falar, sem andar, quase imóvel, era minha e nossa fortaleza sua presença carinhosa e afável que trazia até nós Jesus Menino que nunca esteve em uma manjedoura e sim sempre cravado em uma cadeira especial para conseguir viver. Esforços não faltaram de tantos membros que ao longo desses quinze anos tiveram o privilégio de cuidar de você e aprender com você o sentido da vida.

 

Quantos voluntários puderam transportar você ao hospital. Muitas vezes achávamos que você não chegaria vivo, mas você vencia como um guerreiro, nos mostrando o que é ser de Deus, e com oferta nos levava sempre a crer que para Deus tudo é possível, e que “Deus criou os fracos e pequenos para confundir os fortes e poderosos”.

Era muito bom ter você ao longo desses vinte anos comigo, dormindo no mesmo quarto, e foi a você que eu mais confiei minhas dores e alegrias. Eu viajava, ia e voltava e você continuava ali, me esperando sempre atento. Era muito bom confidenciar a você todas as minhas expectativas por dias melhores para você e seus irmãos. Quando deitava no teu peito, por mais atribulado que eu pudesse estar, eu me acalmava. Era como se o Céu me abraçasse naquela hora e sua resposta era ouvir, ouvir, silenciar e depois um beijo de confirmação.

Nós nos conhecíamos muito, assim percebi que neste ano seu estado de saúde se agravava, e você sempre forte, mas reagindo menos. Percebi que se despedia de nós aos poucos, e assim fui tentando entender os planos de Deus. Você sabe o quanto foi e é difícil entender e perder você fisicamente.

Em vinte e sete de outubro, quando vi você passando mal, percebi o quanto era sério o quadro, vi você sofrendo, tentando aguentar. Corremos para o hospital, quanta esperança, mesmo conhecendo e tendo certeza de que você se despedia de mim.

No quarto os médicos solícitos e toda a equipe de enfermagem, muitos amigos e sacerdotes. Toda a Comunidade começou um Calvário, vendo que seu filho todo especial estava indo, o diagnóstico comprovava: “Dani está morrendo...”.

Quis ficar! Nossas últimas horas juntos cantei pra você, fiz carinho em você, senti que o mundo parou e entendi claramente meu melhor amigo, meu filho, meu tesouro está indo pro Céu. É difícil se separar de quem a gente ama, mas entendi também que “amar é deixar livre quem amamos”.

Tive a alegria de ficar só eu e você, o quarto vazio, rezamos o Angelus, coloquei o CD com a música “Se a dor algum dia te visitar”; percebi que você se esforçava para me olhar e falar alguma coisa, então disse a você: “Meu Danito, vai pra Deus, fala de mim pra Deus e cuida da nossa Comunidade. Pode ir, nosso amor é para sempre, nós nos encontraremos um dia no Céu”, e assim você seguiu sua viagem para o Paraíso às 12h19. Foi como se eu tivesse ido com você, parece que cortou um membro do meu corpo. Acredito que perdemos você fisicamente, mas ganhamos um intercessor no Céu, e creio que as graças já estão acontecendo.

 

Procurarei levar sempre seu exemplo de aceitação da vontade de Deus. Jamais esquecerei das lições que você me deu. Se eu buscava a santidade, agora busco com mais intensidade, pois para ficar perto de você somente sendo santo como você.

 

Daniel, você não morre, pois dentro de mim você viverá eternamente e viverei com saudade este amor tangível. Hoje não tenho mais você fisicamente, mas o amor está presente, pois o amor não morre...

 

Você é meu orgulho. Até um dia... te amo muito.

Teu pai, Tônio.”

Daniel, Tônio e Fábio em mais uma internação do Daniel

Geneci com Daniel

Uma mãe especial para um filho especial

Daniel teve toda uma história de rejeição desde sua gestação, porém encontrou na Comunidade uma verdadeira família, um povo que o amava, irmãos, irmãs, amigos, pai, e uma mãe muito especial...

 

Geneci assim que chegou para sua experiência como vocacionada logo foi designada para cuidar de Daniel, e ao longo do tempo dessa experiência foi por ele formada. Ela, que vinha de muitas experiências cuidando de bebês e crianças filhos de pessoas muito ricas, com todo conforto e cuidado, agora cuidava de um jovem menino com uma paralisia cerebral gravíssima que dependia muito de seus cuidados.

 

Para mim, foi difícil num primeiro momento dividir Daniel com ela, afinal eu sempre fui o “paizão” dele, e agora era ela quem cuidava de suas roupas, banho, alimentação e o

acompanhava em suas idas ao hospital.

 

Via entre eles a relação de um jovem Especial com sua mãe: rezavam o terço juntos, ela pedia beijo antes de ir dormir, e quantas vezes me senti enciumado pelo contato entre os dois...

 

Mas vi no dia da partida de Daniel para o Paraíso o quanto Geneci sofreu. Ele é o ícone da sua vida, o filho Especial que Deus lhe deu aos sessenta anos de vida. Com certeza ele a trouxe à sua realidade de criança e revelou nela a maternidade vivida com outras crianças. E ela trouxe a ele seu colo maternal e o aceitou como ele era e queria ser tratado: amado, amando.

 

Quando a dor se torna sinal de ressurreição

Durante toda a sua vida na Comunidade Jesus Menino Daniel foi um instrumento divino para capacitar e levar muitos jovens vocacionados em experiência conosco a descobrirem um novo sentido para suas vidas em coisas muito simples do nosso cotidiano, como dar banho, alimentá-lo, conduzí-lo ao seu banho de sol ou mesmo ficar a seu lado como uma profunda companhia. Assim gostaria de dividir com você o relato que se segue, escrito pelo jovem Evandro, que tanto me impressionou ao perceber a pessoa do Daniel como esse pequeno evangelizador sem palavras:

“Vinde, abençoado de meu pai, tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mt 25,34)

 

Não sei bem como começar este testumunho.devo confessar antes de tudo o meu sentimento de comoção ao tomar conhecimento, através da “Carta aos Amigos” de dezembro de 2004, da partida de Daniel para a Pátria Celeste. Não pude conter as lágrimas, como não posso contê-las agora ao ver a fotografia de Daniel e ao relembrar os momentos em que estive com ele.

 

Daniel partiu, encontrou-se com Jesus. O Divino Mestre certamente o recebeu de braços abertos, dizendo: ‘Vinde, abençoado de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo’ (Mt 25, 34).

 

Daniel foi o Evangelho vivo e vivido; silencioso, mas de uma eloquência somente entendida por aqueles que tiveram a felicidade de poder conviver com ele, ainda que por um breve espaço de tempo. Tenho que testemunhar que na minha caminhada cristã tive a oportunidade de ouvir o Evangelho pregado por muitos, mas ninguém foi tão contundente quanto Daniel. Hoje, num mundo em que a técnica pretende dominar tudo, até a pregação do Evangelho, Daniel nos mostrou e continua a nos mostrar que o silêncio e o sorriso podem convencer muito mais do que muitos teólogos e místicos, pois Deus ocultou estas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos (Mt 11,25).

 

Lembro-me daquele menino sofredor e sorridente, deitado num berço simples na antiga e modestíssima casa da Rua Carvalho Júnior, em Corrêas, à semelhança do Jesus Menino em Belém. Daniel viveu como poucos a realidade evangélica: sendo pequeno e último nesta vida, é príncipe na eternidade. Agora que todas as suas lágrimas foram enxugadas, ele se encontra sentado num trono junto de Jesus e de todos aqueles que viveram verdadeiramente o Evangelho, porque Deus “ergue o desvalido e retira o indigente do monturo para sentá-lo com os nobres, com os nobres do seu povo” (Sl 113, 7-8).

 

Louvo a Deus por ter vivido, ainda que por exíguo lapso de tempo, na Comunidade Jesus Menino e por ter podido conviver com o Daniel, e por estar chorando agora essas lágrimas, e por ter conforto de ter ganhado mais um intercessor junto a Jesus. Quem sabe, no dia em que eu tiver de me apresentar a Jesus – justo Juiz, o Daniel advogará em nosso favor, pois “quem der de beber a um destes pequeninos um copo com água por ser meu discípulo, em verdade vos digo, não há de perder a sua recompensa” (Mt 10,42)

 

Um abraço do irmão em Cristo,

Evandro da Silva Bittencourt

(amigo e colaborador da Comunidade)

E a Família ganha Novos membros

 
Capítulo XIX
15 anos de Comunidade
Capítulo XIX - Parábolas de Corações Especiais
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Dezesseis anos de Providência e não coincidência

Em 1987 Deus, em sua infinita Misericórdia fez com que meus se abrissem para a dor e o sofrimento daqueles irmãos especiais que viviam tão perto de nós e, ao mesmo tempo, tão invisíveis. Sem dignidade, rejeitados algumas vezes até pelos próprios pais, ali estavam eles. E o Bom Deus me presenteou com esse novo olhar que me permitia vê-los como pessoas por inteiro, cheios da graça de Deus.

 

Em 1998, aprouve ao Senhor permitir que nossa vocação fosse provada, e de 6 acolhidos passamos a 36, um número muito maior do que jamais imaginei. Foram momentos em que a Providência Divina se fez presente a cada instante, a cada aparente dificuldade...

 

O ano de 2001, foi marcado pela procura de um lugar que nos permitisse unificar os lares e oferecer um espaço maior, mais plano e confortável aos acolhidos, o que só aconteceu em 2002. E como sempre, Deus nos surpreendeu com muito mais do que havíamos pensado.

 

Nossa vocação exige um pouquinho de nós, mas experimentar os sucessivos e ininterruptos milagres de Deus é verdadeiramente uma bênção. Foi maravilhoso quando Fabiano recebeu a Eucaristia e ficou curado de um mal no estômago; quando uma vidraça caiu e não cortou nenhum dos acolhidos que ali estavam; quando nossa Kombi quebrou a barra de direção em plena ponte do Rio Paraíba e nada aconteceu a nenhum de nós; quando mudamos para a nova casa, e no nosso primeiro dia no Carangola apareceu no portão um menino que aparentemente vinha pedir alguma coisa. Ele estava descalço, tinha uns oito anos de idade, e então atendi: “Pois não?”. Ele respondeu: “Moço, vim trazer uma doação para os meninos, aqui está um quilo de fubá”. Era o próprio Jesus Menino nos confirmando.

 

A vida gerada sob o olhar maternal de Maria

Sempre acreditei na força positiva que gera a vida dentro da Comunidade. E logo assim que iniciou o ano de 2005, pude reunir uma boa equipe de jovens e amigos que pudessem em conjunto com nosso conselho administrativo e consagrados preparar as festividades dos quinze anos da Comunidade. Fizemos diversos encontros para, em comunhão com todos, celebrar esta tão nobre data.

 

Dia vinte e quatro de abril, aconteceu a bonita celebração de quinze anos. Era como um sonho. Parecia que toda a história de quinze anos se encontrava ali. Era possível ver rostos alegres e festivos, mas também como todos nós passamos com o tempo, e quantas almas e vidas foram consumidas como velas sobre o altar.

 

Sim, Deus abençoava todo aquele momento e ali nascia a história de uma adolescente obra de Deus, nascida para aprender a se comunicar com o Amor através dos jovens e crianças especiais.

 

A Missa

Éramos um só coração! Ali estava Pe. Quinha, alegre como criança, que pôde contar em uma linda homilia toda aquela trajetória divina, e com ele Pe.

Getúlio e Pe. Márcio. Alegres também estavam nossos acolhidos Fábio e Sandro, que estavam vestidos de túnica branca, recebendo a importante tarefa de nos representar no altar .

 

No ofertório pudemos contar toda a história da Comunidade através das pessoas que participaram, era tudo vivenciado com muita intensidade. Eu tentava me achar em tudo aquilo, parece que o tempo não passou e ao mesmo tempo olhava para trás e via quantas almas haviam sido salvas e quantas pessoas voltaram a Deus...

 

Ali estavam: os acolhidos e consagrados, minha família, os donos da primeira casinha, os primeiros companheiros: Pe. Quinha, Zeca, Elísio, o Grupo Santo Agostinho, a Fazenda da Esperança, a Canção Nova, as irmãs de Sion e de Santa Catarina, os irmãos italianos, que enviaram cartas, a Banda Bom Pastor, enfim todos... Quase mil pessoas!

 

Após a Missa, tivemos uma linda confraternização. Quando chegou a noite e tudo já havia se acalmado, pude sozinho ir até o campo onde a festa foi realizada e sentir novamente Deus falar: “Agora tua Missão continua... amanhã tudo será igual,

mas fidelidade... a festa continua...”.

 

Há muito tempo tenho uma oração própria minha: toda noite vou ao Sacrário, me despeço de Maria e de José pedindo a bênção com um beijo em cada um, depois beijo o chão embaixo do Sacrário e digo: “Eis aqui Senhor teu servo inútil, me renova para amanhã. Eis-me aqui sempre...”. E neste dia dos quinze anos, fiz essa mesma oração com fervor redobrado e renovei com Deus pelo tempo que ele achar necessário, o meu “eis-me aqui”.

Iago

O pequeno Iago

Acolhemos o pequeno Iago, um milagre “via satélite”. Nos últimos anos, temos colocado na Rede Vida uma vinheta divulgando nossos encontros vocacionais. Assim uma assistente social da cidade, onde Iago vivia, viu essa chamada e me ligou falando do Iago, e se sabíamos como conseguir em Petrópolis uma instituição para acolhê-lo. Meu coração ardeu com esse pedido e logo reuni a Comunidade e falei de Iago. Senti que Deus me pedia aquele presente para nossos quinze anos. Logo liguei para a assistente social e marcamos para conhecer Iago. Fomos até lá e ao receber Iago vi que ele já nos pertencia no coração.

 

Os processos foram feitos e no dia primeiro de julho de 2005 ele veio ser nosso. Já no dia trinta e um de julho recebeu o Batismo. Hoje, ape-sar de sua vida tão frágil, ele nos traz um sorriso do Céu, sua alegria é um santo remédio que nos enche de Paz.